Realce

Gilberto Gil

"Realce, uma maneira de dizer a luz geral. Denominar o brilho anônimo, como um salário mínimo de cintilância a que todos tivessem direito. Como a noite de discothéque após o dia de trabalho.

Realce, uma maneira de dizer o bem-estar. Denominar o prazer coletivo, o êxtase do simples caminhar contra o vento de qualquer um. Como o domingo de futebol após a semana de fábrica.

Realce, uma maneira de dizer o Deus louvar. Denominar o santo sem altar, como nos tempos profanos dos terminais de trens e aviões, onde todos estão pra nada, indo ou vindo para tanta coisa.

Realce, cada um por si, Deus por todos"

Encarte da "Caixa Palco"

Marcelo Fróes

"Quando eu fiz ‘Refavela’, já sabia que seria a segunda parte de uma trilogia iniciada com ‘Refazenda’", explica Gil. "Como ‘Refestança’ não era um disco meu, mas sim um projeto com Rita Lee e para uma outra gravadora, aquele título ficou apenas como uma brincadeira. Quando compus Rebento, o produtor Mazola ficou querendo que este fosse o título – ainda mais porque Elis Regina havia gravado a música", historia o artista. "Mas eu não queria... e acabei fazendo Realce a partir de esboços que levei do Brasil, enquanto viajava de ônibus divulgando ‘Nightingale’ na college tour".

Antes de sair em sua excursão promocional, entre março e abril de 1979, Gil havia passado no Brasil para fazer alguns shows de verão e uma temporada no Teatro Vila Velha de Salvador. Numa passagem pelo Rio de Janeiro, entrou no Estúdio Transamérica com os ex-Mutantes Sérgio Dias (guitarra) e Liminha (baixo), além do maestro e tecladista Lincoln Olivetti, e gravou sua versão para No Woman, No Cry – sucesso de Bob Marley. O compacto de Não Chore Mais chegou às lojas em maio de 1979, trazendo no lado B a pérola Macapá – que depois acabou ficando de fora do LP Realce mas que, aqui e agora, volta à história como bônus desta reedição em CD. "Não Chore Mais só foi incluída em Realce porque estava estourada", resume Gil.

Realce, a faixa-título do LP e emblema da terceira parte da trilogia de "Re´s", foi gravada – como todo o disco – no Westlake Audio de Hollywood. Seu solo de guitarra ficou por conta de Steve Lukather, do grupo Toto, enquanto que os teclados de Jerry Hey – arranjador do Earth, Wind and Fire – chamaram atenção de Gil. "Eu também me lembro de um enorme set de teclados que ia do chão ao teto e lembrava Emerson, Lake & Palmer. O músico ficou um dia inteiro operando aquela parede de sintetizadores, gravando os playbacksdo disco", lembra-se Gil.

Para gravar Realce em Los Angeles, Gil levou consigo uma banda que consistia de Rubão Sabino (baixo), Luiz Carlos (bateria), Tuca (teclados) e Djalma Correa (percussão). O restante foi gravado por músicos da cena californiana, por força de um desejo do produtor Mazola – que via na idéia toda uma questão que mesclava qualidade e também glamour. "Eu me lembro de ter feito o arranjo de Sarará Miolo na véspera da gravação, enquanto que Logunedé a gente bolou aquele baixo contínuo no saguão, enquanto esperava a van que nos levaria pro estúdio", lembra Gil.

O repertório do disco revela um trabalho com "apenas" nove faixas, das quais Tradição datava de 1973 – mais exatamente, das sessões do abortado "Cidade do Salvador", enquanto que Marina era uma bela versão moderna para o clássico de Dorival Caymmi e Sarará Miolo já fora gravada com Nara Leão em 1977. Rebento e Toda Menina Baiana foram feitas em Salvador antes da viagem para Los Angeles, sendo que a segunda inspirada na filha primogênita Nara Gil, que àquela altura entrava na pré-adolescência. Por fim, Super-Homem foi feita às vésperas do embarque, quando Gil estava hospedado no apartamento de Caetano Veloso e ouviu seus comentários elogiosos ao longa-metragem americano estrelado por Christopher Reeve.

Realce foi lançado em agosto de 1979, a partir de quando teve trabalhadas sucessivamente as faixas Realce e Super-Homem. Apesar do sucesso, Gil está insatisfeito. Separa-se da mulher Sandra e pensa em afastar-se da música. "Eu compunha muito, mas também estava questionando meu talento. O Tropicalismo havia deixado esta herança complicada. Eu estava muito variado, muito voluptuoso, mas ao mesmo tempo muito exigente. Tinha que estar engajado, por força daquela herança dos festivais. Tinha que fazer parte do sistema, mas sem abrir mão de minhas ideologias. Isso tudo me atormentava, pois eu não acei tava com tranqüilidade as coisas que eu estava fazendo. Em função disso eu dei, perdi e esqueci muita música nessa época", lembra Gil.

No início de 1980, Gil anunciou que aquele seria um ano de poucos shows. Chegou a acompanhar Jimmy Cliff em sua turnê brasileira, mas o ano foi mais marcado pelos sucessos doados a colegas – como Abri a Porta (A Cor do Som), Meu Coração (Pepeu Gomes), Medo de Avião 2 (Belchior), Meu Amigo, Meu Herói (Zizi Possi) e Aroma (Lúcia Turnbull), dentre outros.

Junho, 2002

PS (1): Também figuram como faixas bônus desta reedição em CD as gravações de Gil para o LP "Antologia do Samba-Choro" – gravada para a Philips no verão de 1978. "Eu tinha que fazer um disco para pagar o contrato com a Phonogram e poder assinar com a WEA, e eu gostava muito do Germano Mathias desde jovem. Ele era uma espécie de Zeca Pagodinho, pois juntava as diversas vertentes do samba e transitava pelo samba-de-breque. Ele não era da comunidade do samba, corria por fora, e isso me agradava. As letras daqueles sambas hoje podem soar politicamente incorretas, mas são anteriores à contestação que começou a rolar com o movimento black – que àquela altura ainda não havia por aqui. As músicas também revelam um machismo típico do malandro, que é sempre democrático porém conservador com relação à mulher e à amante. Elas têm uma jocosidade típica de Monsueto e Wilson Batista", comenta hoje Gil.

PS (2): O show de abertura de Gil durante a turnê com Jimmy Cliff em 1980 consistia das seguintes músicas: Palco, Aroma, Realce, Se Eu Quiser Falar com Deus, Super-Homem, a Canção, Aquele Abraço, Marina, Sarará Miolo, Toda Menina Baiana e, no bis de Cliff, No Woman No Cry em dueto da dupla Cliff & Gil.