Luzia Luluza

Gilberto Gil

Passei toda a tarde ensaiando, ensaiando
Essa vontade de ser ator acaba me matando
São quase oito horas da noite, e eu nesse táxi
Que trânsito horrível, meu Deus
E Luzia, e Luzia, e Luzia
Estou tão cansado, mas disse que ia
Luzia Luluza está lá me esperando

Mais duas entradas, uma inteira, uma meia
São quase oito horas, a sala está cheia
Essa sessão das oito vai ficar lotada

Terceira semana em cartaz James Bond
Melhor pra Luzia não fica parada
Quando não vem gente, ela fica abandonada

Naquela cabine do Cine Avenida
Revistas, bordados, um rádio de pilha
Na cela da morte do Cine Avenida, a me esperar

No próximo ano nós vamos casar
No próximo filme nós vamos casar

Luzia, Luluza, eu vou ficar famoso
Vou fazer um filme de ator principal
No filme eu me caso com você, Luluza, no carnaval

Eu desço do táxi, feliz, mascarado
Você me esperando na bilheteria
Sua fantasia é de papel crepom

Eu pego você pelas mãos como um raio
E saio com você descendo a avenida
A avenida é comprida, é comprida, é comprida...
E termina na areia, na beira do mar
E a gente se casa na areia, Luluza
Na beira do mar
Na beira do mar


© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá)

ficha técnica da faixa:
voz e violão: Gilberto Gil
arranjo: Rogério Duprat
direção musical: Rogério Duprat
guitarra: Lanny Gordin
baixo: Sérgio Barroso
bateria: Wilson das Neves
orgão & piano: Chiquinho de Moraes

"Best tropicalia", Gilberto Gil, Polygram Music 1999

"Essa é uma viagem linda, um delírio, uma fantasia sobre um casal de jovens, ambos pobres, gente comum trazida para o estrelato do romance. Ela tem que trabalhar na bilheteria de um cinema, ele está num curso de teatro. O cinema idealizado por mim fica na avenida São João (em São Paulo); é o Comodoro ou um daqueles. Ela está na cabine. Ele sai de táxi, da Nestor Pestana, onde ensaiava, pra ir vê-la, e pega um engarrafamento 'brabo'. Essa a visão que eu tinha.

"Naquela cabine, a rotina, o tédio, a falta de sentido de um trabalho escravo num cubículo com um vidrão parecendo uma sala da morte mesmo. Ali ela morria um pouco a cada dia, morriam suas forças, sentada horas e horas dentro de um espaço exíguo, sem movimentos e quase sem ar para respirar. Ali, ela, já meio agoniada porque ele não chega; e no carro, ele, preso no trânsito, agoniado pra chegar porque ela está à espera.

"E ele vem como o libertador para tirá-la daquela prisão; para libertar Luluza, como ele a chamava carinhosamente - e como eu a nomeei para dar sonoridade musical e o sentido de ternura juvenil entre eles. E ele sonha, e chega, e os dois saem correndo pela avenida (e a São João é comprida mesmo, vai lá pra Lapa, por aquele corredor ela vaaaai...).

"E os pensamentos, os discursos pela metade de cada um, as frases soltas que hipoteticamente seriam ditas - 'Essa sessão das oito vai ficar lotada' (ela), 'que trânsito horrível, meu Deus' (ele) -: a narrativa se dá por fora e por dentro, misturadamente; tanto o narrador como os personagens se manifestam. Um conto.

"O curioso nessas canções minhas com histórias e personagens é que eu não as imagino antes; elas são inventadas na hora. Elas não são construídas como os romances, onde as tramas vão sendo elaboradas antes do ato de escrever. Eu sento para fazê-las e elas vão se engendrando. Elas revelam um traço de escritor que eu poderia ser, se quisesse. Mas sou preguiçoso; prefiro fazer uma canção numa tarde a ficar um tempão num romance."
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