Não chore mais

Gilberto Gil

Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o sol
Ob-observando hipócritas
Disfarçados, rodando ao redor

Amigos presos
Amigos sumindo assim
Pra nunca mais
Tais recordações
Retratos do mal em si
Melhor é deixar prá trás

Não, não chore mais
Não, não chore mais

Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o céu
Ob-observando estrelas
Junto à fogueirinha de papel
Quentar o frio
Requentar o pão
E comer com você
Os pés, de manhã, pisar o chão
Eu sei a barra de viver

Mas se Deus quiser
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé

Não, não chore mais
Não, não chore mais


© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá)

ficha técnica da faixa:
voz e guitarra: Gilberto Gil
guitarra: Celso Fonseca
percussão: Repolho
baixo: Rubens Sabino (Rubão)
bateria: Jorge Gomes
sopros: Raul Mascarenhas
sopros: Paulinho Trompete
sopros: Sérgio Trompete
teclado: Ricardo Cristaldi

Outras gravações:
"Liebe paradiso", Celso Fonseca e Ronaldo Bastos part. João Donato, Dubas Musica 2011
"Balé mulato ao vivo", Daniela Mercury, Páginas do mar 2006
"Banda Larga ao vivo em São Paulo", Gilberto Gil, Gege Produções Artísticas 2008
"Perfil", Gilberto Gil, Sigla 2005
"Nova série", Gilberto Gil, Warner Music 2007
"Eletracústico", Gilberto Gil, Warner Music
"Realce", Gilberto Gil, Warner Music 1988
"Mestres da MPB", Gilberto Gil, Warner Music 1992
"Gilberto Gil - original album series", Gilberto Gil, Warner Music 2012
"Bandadois", Gilberto Gil, Warner Music 2010
"Natiruts 2015", Natiruts, Zeropontodois Entretenimento 2015
"Povo das estrelas - 30 anos de samba, reggae e cidadania", Olodum, João Jorge Santos Rodrigues 2015
"A festa rock", Rodrigo Santos, Coqueiro Verde Records 2015
"Um barzinho, um violão - melennium", Sandra De Sá, Universal Music 2004

[ No Woman, No Cry, de B. Vincent]

"Eu pensava na transposição de uma cena jamaicana para uma cena brasileira a mais similar possível nos aspectos físico, urbano e cultural. Emblemática do desejo de autonomia e originalidade das comunidades alternativas, No Woman, No Cry retratava o convívio diário de rastafaris no 'government yard' (área governamental) em Trenchtown, e a perseguição policial, provavelmente ligada à questão da droga (maconha), que eles sofriam. Esta situação eu quis transportar para o parque do Aterro, no Rio de Janeiro, também um parque público, onde localizei policiais em vigília e hippies em rodinhas, tocando violão e puxando fumo, como eu costumava vê-los de noite na cidade. Coincidindo com o momento em que a abertura política estava começando, Não Chore Mais acabou por se referir a todo um período de repressão no Brasil."

"Não chore mais" - "Minha tradução para o refrão-nome foi uma escolha arbitrária, porque eu nunca entendi direito o que os autores queriam dizer com o proverbial 'no woman, no cry'. Até procurei, mas não tive meios de saber. Alguns me disseram que a expressão significa 'nenhuma mulher, nenhum problema'; eu pensei em 'nenhuma mulher, nenhum choro', um adágio local talvez. E também numa possível forma em inglês dialetado para o correto 'no, woman, don't cry'.

"Optei por algo próximo disso inclusive porque, assim, eu me aproximava mais do sentido dos outros versos da música, uma espécie de lamento pela perda dos amigos e pela presença pertubadora da repressão que, na versão pelo menos, adquire um ar de canção de despedida, com o homem dizendo à mulher que está indo embora, mas que isso não é o fim do mundo, e que é pra ela se lembrar do tempo dos dois juntos etc. Uma instauração de um espaço afetivo que eu até hoje não sei se o original contém."

"Amigos presos, amigos sumindo assim, pra nunca mais" - "Eu não pensava em ninguém especificamente; a tradução vinha diretamente dos versos em inglês, com o detalhe do uso do termo 'presos' - surgido naturalmente com a lembrança do modo de atuar da repressão, através das prisões, torturas e mortes de pessoas."

"Melhor é deixar pra trás" - "Há uma certa licenciosidade interpretativa aí. 'You can't forget your past' ('Você não pode esquecer o seu passado'), diz o original. Me referindo ao período que estava terminando no Brasil, eu digo: 'Vamos passar a borracha nisso tudo. O passado tem um débito conosco, mas vamos dar um crédito ao futuro'. Uma posição típica da minha ideologia interna, do meu otimismo, do meu gosto pela conciliação, do traço tolerante da minha personalidade."
BRWMB9901184