A novidade

Gilberto Gil
Bi Ribeiro
Herbert Vianna
João Barone

A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade, o busto de uma deusa maia
Metade, um grande rabo de baleia

A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia

Ó, mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ó, de um lado este carnaval
Do outro a fome total

E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia

A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado

Ó, mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ó, de um lado este carnaval
Do outro a fome total


© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá) /  © Edições Musicais Tapajós LTDA.

ficha técnica da faixa:
voz e violão: Gilberto Gil
violão: Celso Fonseca
bateria e bandolim: Jorge Gomes
flauta: Lucas Santana
percussão: Marcos Suzano
baixo: Arthur Maia

Outras gravações:
"Banda Forró Urbano", Banda Forró Urbano, independente, 2001
"Biquini Cavadão 2001", Biquini Cavadão, Universal Music, 2001
"Forró Chama Chuva", Chama Chuva, EMI Music, 2001
"Cidade Negra 2006", Cidade Negra, Sony BMG, 2006
"Sucessos do barzinho - vol. 4", Claudio Rodrigo, Sony BMG, 2003
"Selvagem", Paralamas do Sucesso, EMI, 1997
"Paralamas ao vivo – Vamo bate lata", Paralamas do Sucesso, EMI-ODEON, 1995
"O som do luau 2", Som do Luau, Deck Disc, 2003
"15 anos de rock", Paralamas do Sucesso e Titãs, EMI, 2008
“Projeto Ceafro”, Ceafro, independente, 2001
“A música de Herbert Vianna”, Biquini Cavadão, Universal Music, 2003
“Brasil afora ao vivo”, Paralamas do Sucesso, EMI, 2010



Gilberto Gil estava em Florianópolis quando Herbert Vianna ligou pra ele e lhe pediu para pôr letra na única música que faltava para fechar o disco (Selvagem) que os Paralamas do Sucesso estavam terminando de gravar. Logo, Herbert mandava via sedex a gravação instrumental da música, que Gil retirou no correio.

Gil: "Fui pro hotel e botei a fita no gravador. Depois de umas quatro passadas, saí anotando. Eram mais ou menos duas da tarde. Às três horas eu estava ligando pro estúdio já para passar a letra. Foi uma coisa assim: bum! A letra veio como um tiro certeiro, absolutamente de chofre, inteira. E de um modo surpreendente até pra mim, porque, mesmo sem tempo pra qualquer avaliação crítica no dia seguinte, resultou no que eu acho um dos meus melhores textos - pela escolha e pela maneira de tratar o assunto, pela concisão e pela elegância da construção."

Um estímulo visual... - "O quarto do hotel dava para o mar, e eu estava escrevendo na mesinha de frente para a janela, com a visão do mar ao fundo. Daí a idéia da sereia que vinha dar à praia."

... e outro, sonoro - "Algumas sílabas no início do cantarolar do Herbert na fita me insinuaram algo que soava como a palavra 'novidade', e eu aproveitei essa sugestão sonora. O restante veio por acaso mesmo."

Riqueza versus miséria - "O tema da desigualdade sempre fez parte do modo de inserção da minha geração na discussão dos problemas da sociedade; do nosso desejo de expressá-los. Universitário por excelência, o tema é portanto anterior e recorrente em meu trabalho. Está em Roda, em Procissão, em Barracos. Agora, em A Novidade, a imagem da sereia é que dá a partida para o tratamento da questão; a novidade é essa. Pode-se imediatamente pensar no Brasil, mas é sobre o Terceiro Mundo em geral; mais: sobre todo o 'mundo tão desigual', mesmo, de que fala o refrão."
BRWMB9701487