Drão

Gilberto Gil

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se, infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morrenasce, trigo
Vivemorre, pão

Drão


© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá)

ficha técnica da faixa:
voz e violão: Gilberto Gil
violão: Celso Fonseca
bateria e bandolim: Jorge Gomes
flauta: Lucas Santana
percussão: Marcos Suzano
baixo: Arthur Maia

Outras gravações:
"A voz do bandolim", Armandinho, Vison
"MPB collection", Arthur Moreira Lima, Sony
"Prenda Minha ao vivo", Caetano Veloso, Universal
"Melody sax", Chico Costa, Seven Music
"Diana Pequeno", Diana Pequeno, RCA
"Songbook Gilberto Gil", Djavan, Lumiar
"Caixinha brasileira", vários, Angel Records
"Sucessos de barzinho", Jura Figueredo, Continental
"Maria Gabriela", Maria Gabriela, Opus
"Barzinho Brasil", Melquiades, Ultra Disc
"Música ambiente", Orquestra Albatroz, Albatroz

"Há canções de maturação, que começam por uma pílula de criação - por uma gota que colore a água no jarro e vai decantando; um dia você pega aquele precipitado lá no fundo e trabalha nele. É um modo; Expresso 2222, por exemplo, foi feita assim. Mas há canções que demandam esforço concentrado por considerável período de tempo de realização intensiva. Drão está entre essas.

"Sua criação apresentou altos graus de dificuldade porque ela lidava com um assunto denso - o amor e o desamor, o rompimento, o final de um casamento; porque era uma canção para Sandra [apelidada Drão - daí o título da música] - e para mim. 'Como é que eu vou passar tanta coisa numa canção só?', eu me perguntava. Além disso, havia a exigência de excelência, de que o versar tivesse capricho. Então demorou dias e dias de trabalho.

"Eu me lembro de estar sentado no chão, anotando frases no caderno, com o violão do lado, e de repente sentir o sufoco do coágulo da criação, e ao mesmo tempo a iminência da explosão da via criativa, e não aguentar, saindo dali e indo para o quarto me deitar e deixar, então, aquele coágulo se dissolver, criando filetes que se encaminhavam pra aqui e pra ali... Aí o cérebro e o coração entumeciam, algumas idéias fluíam, e dois, três ou quatro versos saíam. Satisfeito, eu fechava o caderno e ia embora cuidar da vida. Saía, passava o dia fazendo outras coisas, chegava de noite eu retomava; ficava a madrugada toda de novo.

"Outra exigência que eu me colocava era de não me precipitar. Eu queria que o fazer, a prática, o empirismo da realização fossem observados pelo meu ser ali à distância: eu tinha que contemplar o feitio da canção. Ao lado do esforço, da tensão concentrada, tinha que haver a descontração, o relaxamento concentrado - as duas coisas, e todas essas exigências sobrepostas determinando o modo de compor a canção.

"Fazer música é uma loucura quando você se coloca tantos problemas."
BRWMB9800617