Encarte da "Caixa Palco"

Marcelo Fróes

Jorge Santos começou a trabalhar como pianista na Rádio Excelsior de Salvador em 1945, buscando uma colocação como locutor. Trabalhava num programa chamado "Caderno de Música", que apresentava os valores revelados pela Escola de Música da Bahia e também pela Escola Nacional de Música. De tanto insistir, o diretor da rádio deu-lhe a chance de tornar-se locutor – desde que também trabalhasse como corretor de publicidade. Comercializando espaços, Jorge deu-se bem no ramo e passou a vender seus próprios programas. Abriu então uma agência de publicidade e em seguida uma produtora, que por sua vez inaugurou um estúdio para spots e jingles em 1959. O selo JS Discos foi inaugurado em 1962, numa época em que se gravava disco com uma máquina que utilizava como mídia um fio de arame e que só registrava as altas freqüências. Perdiase metade do som, então era mais negócio gravar diretamente num frágil acetato – apesar do grave perigo de se perder uma gravação. Assim foram gravados os primeiros jingles da JS e foi nesta fase que Jorge Santos conheceu Gilberto Gil.

"Nós estávamos para gravar um jingle e um dos rapazes do conjunto Os Irapuãs não apareceu", conta Jorge quarenta anos depois. "Um outro membro do grupo disse: ´Não deixa de fazer a gravação não; a gente vai buscar o Beto! Ele é meio tímido, mas...´. Eu topei, a gente entrou no carro e foi lá na casa onde ele morava com as tias no Santo Antônio, bairro tradicional pela boemia", historia o produtor. Beto, apelido de Gil na época, não se fez de rogado e foi para o estúdio com o grupo. Fez a quarta voz sem dificuldade, num estúdio de 25m2 que a JS tinha no Edifício Sulacap, situado em frente à Praça Castro Alves (Salvador, BA), e em seguida sentou-se com seu acordeom para tocar algumas músicas. Jorge passou, ouviu e parou. Era Bem Devagar e umas outras, então lhe perguntou: "Ô Beto, de quem são essas músicas?". Ele respondeu: "São minhas", e tocou e cantou mais duas. Então veio mais um convite: "Rapaz, você vem gravar mais jingle aqui comigo?". "Beto" estudava Administração e passaria a ser chamado para acompanhar gravações de jingles, entrando para a "família" que gravava temas para clientes como Milisan e Polígono Filmes.

"Eu também fazia – com meu sócio José Jorge Randam – o programa de auditório ‘J&J Comandam o Espetáculo’ na TV Itapoan, onde o Gil também passou a cantar", lembra Jorge Santos. "Ele era muito tímido e ficava meio acanhado, não ficando à vontade diante das câmeras." Na mesma ocasião, o comunicador também conheceu as irmãs Cynara e Cybele cantando em dupla no programa "Escada para o Sucesso", e as chamou para gravar jingles em seu estúdio. Apaixonado por grupos vocais como Os Cariocas e Conjunto Farroupilha, ele sonhava montar um quarteto vocal baiano. Chegou a trabalhar com os Irapuãs, lapidando arranjos com o tecladista Carlos Lacerda. Cynara e Cybele gravaram dois jingles e, como a apresentadora Ana Lúcia era prima delas, Jorge insistiu para que formassem um grupo. Nasceram então As Três Baianas, que gravaram não só jingles como também a música Bem Devagar – o primeiro 78rpm da JS Discos, prensado em cera de carnaúba e muito disputado. "Prensei mil cópias e as usei como brinde, já que não chegou às lojas". De autoria de Gilberto Gil, Bem Devagar marcou a estréia não só de Gil em disco – ainda que apenas acompanhando as tais Três Baianas no acordeom – como também o início da história de um importante grupo vocal. "Elas começaram a cantar como trio na televisão e acabaram conseguindo uma passagem para o Rio, então eu fiz uma carta para um amigo chamado Sivan – um cara temperamental, mas que se encantou com elas. Ele tinha um estúdio no Largo da Carioca, onde eu gravava muita coisa, e lá elas me gravaram o jingle do refrigerante Laranja Turva e me enviaram pelo correio", historia Jorge. "Ficou tão bonito que foi usado por uns sete ou oito anos e me deu o Prêmio Colunistas do jornal ‘A Tarde’. Foi aí que nasceu a minha produtora de comerciais para a TV, comprando maquinário com financiamento e transferindo o estúdio para um espaço de 80m2 no terceiro andar do Edifício Martins Catarino, na Rua Chile – centro de Salvador. Ana Lúcia acabou voltando e as duas outras se juntaram à irmã Cyva, que já morava no Rio, e pouco depois conheceram Vinicius de Moraes e este batizou o Quarteto em Cy."

A estréia artística de Gilberto Gil deu-se quase simultaneamente, quando Povo Petroleiro foi feita por Everaldo Guedes – um entusiasmado funcionário da Petrobrás. Amigo de Carlos Lacerda, espécie de diretor musical do estúdio JS, Everaldo negociou de forma a ficar com metade da tiragem única de mil cópias. Não havia mercado para o produto e ele nem chegou às lojas, sendo portanto mais um brinde distribuído entre amigos e clientes da produtora de Jorge Santos. Em Salvador, Lacerdinha, lado B daquele 78rpm, chegou a fazer um certo sucesso – já que na época a capital baiana sofrera uma invasão de mosquitos e a população logo comparou o fenômeno ao governador da Guanabara.

Depois daqueles dois primeiros 78rpm "promocionais", a JS resolveu lançar Gilberto Gil no mercado. O disco foi gravado no novo estúdio da JS, que tinha pé-direito de 2,80m e possuía uma acústica invejável – tratada pelo "doutor" Jorge Coutinho, um engenheiro de som carioca que trabalhava praticamente como diretor artístico da Musidisc e que, depois de ter projetado as novas instalações da JS, anualmente iria a Salvador para fazer a revisão técnica dos equipamentos. Numa das oportunidades, Coutinho também operou a mesa na gravação das quatro faixas que compuseram o compacto duplo "Sua Voz, Sua Interpretação", de Gil. "O violonista Alcyvando Luz fez um arranjo complicado para Vontade de Amar, com quebradas no ritmo que deram muito trabalho à orquestra, que por sua vez tinha dois alemães desajeitados", lembra Jorge Santos, que também destaca a criatividade de Gil na percussão de Serenata do Teleco-Teco. Sem um tamborim à mão, Gil improvisou a batucada com uma pequena faca de cozinha numa lata de leite em pó abafada por um lenço.

"Mandei a CID prensar mil cópias na fábrica dos Zuckerman em Bonsucesso, para distribuição e para o que acontecesse", historia Jorge Santos. "Com esse disco, fomos lançar o Gil no Rio de carro, num DKW que eu havia comprado, passando por Vitória da Conquista e visitando os pais do Gil para comer uma feijoada. Chegando no Rio, ficamos na casa de uma prima de minha mulher em Botafogo e visitamos lojas como a Palermo, que ficava ali no Largo da Carioca. Levamos 100 discos debaixo do braço, mas não conseguimos nada naquela semana. Apenas uma loja se interessou pelo disco, mesmo assim só quiseram cinco cópias e em consignação: ’Não compramos de fabriqueta!’. Fomos embora para São Paulo depois daquele insulto e o Gil ficou frustrado, mas lá ele até deu uma entrevista na Rádio Bandeirantes, cantando duas ou três músicas no programa ‘A Dona da Noite’ antes de voltarmos para Salvador".

"A Sutursa era a empresa de turismo municipal em Salvador e organizou um concurso, contratando a JS para gravar as 12 melhores classificadas. Nós já tínhamos feito o ´1º Festival do Samba na Bahia´, então para esse Gil fez Vem, Colombina e nós resolvemos lançar mais um 78rpm. Com a base gravada no estúdio do Silvan no Rio, aproveitei e gravei em Salvador o playback de Decisão para o lado B e o Gil colocou voz em ambas. Ele era o artista da JS, então o que viesse ele cantava. Ainda estava estudando, nem fazia questão de contrato. Fazia aquilo porque gostava", conta Jorge Santos sobre a disposição de Gil, que algumas vezes chegou a acompanhá-lo em gravações externas – quando, com equipamento portátil, a JS gravou discos de maculelê, sambas-de-roda e capoeira. Anos depois, quando Gil já era artista da Philips, a gravadora mandou uma equipe realizar produção semelhante no estúdio JS e nasceu o projeto "Viva a Bahia", que rendeu alguns volumes. Nos anos 70, o produtor Roberto Santana e o percussionista Djalma Correa percorreriam o país em busca de sonoridades regionais e em Salvador serviram-se do estúdio JS.

Às vésperas da revolução militar de 31 de março de 1964, Gilberto Gil visitou o estúdio JS pela última vez. Queria tirar uma cópia de Maria Tristeza, uma música de protesto que não chamava atenção. "Naquele tempo, nós não ligávamos pra censura prévia", comenta Jorge Santos, que dois meses depois viu Gil inaugurar o Teatro Vila Velha de Salvador, ao lado de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé, no espetáculo "Nós, Por Exemplo", um ano antes de todos mudarem-se para São Paulo.

Quando a RCA lançou Gilberto Gil no Sudeste, cantando Yemanjá no LP do "Festival do Balança" de 1965, a contracapa do produto indicava que o artista teria sido gentilmente cedido pela Mocambo, famoso selo de Recife. "Tudo o que vinha de bom do Nordeste era da Mocambo", explica humildemente Jorge Santos quarenta anos depois de ter lançado Gilberto Gil. Nem tudo de bom vinha da Mocambo.

Jorge Santos reencontraria Gil algumas poucas vezes ao longo das quatro últimas décadas, e em especial quando – em prisão domiciliar em Salvador – Gil entrou no estúdio JS para gravar as bases de voz e violão do álbum de 1969, que deixou gravado antes de partir para o exílio londrino com Caetano Veloso.

As gravações deste CD consumiram alguns anos de incessante busca. Graças ao próprio Gilberto Gil, após alguns meses consegui falar com Jorge Santos ao telefone em meados de 1998. Após muita insistência de minha parte, ele revirou seus pertences e enviou-me cópia de algumas das gravações que Gil fizera para seu selo JS entre 1962 e 1964. Após muitas conversas telefônicas, finalmente em 29 de junho de 2000 o produtor veio ao Rio de Janeiro trazendo seu precioso material. Transferiu-me os direitos fonomecânicos para que eu pudesse tentar relançá-los comercialmente. Durante um inesquecível almoço, Jorge Santos revelou-me detalhes jamais publicados sobre aqueles momentos históricos em Salvador – numa entrevista gravada para a posteridade.

Ainda no ano 2000, quando eu co-produzia um tributo a John Lennon com Celso Fonseca para o selo Geléia Geral (de Gil), seu filho Sean Lennon passou pela cidade e resolveu participar do disco – pedindo que convocássemos o Quarteto em Cy para gravar consigo. Aquele momento tornou-se um corolário de todo esse processo, quando Gilberto Gil visitou o estúdio e, num dos intervalos, e para a perplexidade de quase todos os presentes, resgatou Bem Devagar com Cynara e Cybele. Uma história que ninguém sabia. Ou quase ninguém. Comemorar os 40 anos de carreira de Gilberto Gil com este lançamento, que se dá juntamente com seus 60 anos de idade, é um privilégio único.

Junho, 2002