Um dos melhores CDs de Gilberto Gil segundo Caetano Veloso

Julio Moura

Um dos melhores CDs de Gilberto Gil segundo Caetano Veloso. Incluindo versões em voz e violão de Tempo Rei, Preciso Aprender a Só Ser e Super Homem, entre outros sucessos.

Gravado em 1999, Gil Luminoso destaca uma trilha importante na trajetória do cantor e compositor baiano. São 15 faixas, de forte caráter espiritual, evocando alguns dos principais momentos da carreira de Gilberto Gil, pelos aspectos mais filosóficos de sua musicalidade.

Há temas egressos do Tropicalismo (Cérebro eletrônico); canções de auto-conhecimento (Aqui Agora, Meditação, Retiros Espirituais); músicas entre a celebração (Tempo Rei, Raça Humana), a política (Copo Vazio, O Seu Amor) e a densidade humanista (Super Homem, Metáfora, Preciso Aprender a Só Ser), que fazem de Gil um dos mais originais criadores de um Brasil iluminado.

Concebido inicialmente para integrar o livro homônimo de Bené Fonteles, Gil Luminoso apresenta o músico acompanhado apenas de seu instrumento – na primeira vez que um álbum de Gilberto Gil é realizado neste formato.

O disco começa com Preciso Aprender a Só Ser, lançada originalmente em compacto, em 1973, numa réplica lúdica ao samba-bossa-canção Preciso Aprender a Ser Só, de Marcos e Paulo Sérgio Valle. Ao inverter a lógica das paixões, quase indissociáveis à música popular, o coração repudia as agruras da mente e, ao revelar sua essência, abre mão da dor – sobretudo a de cotovelo.

Aqui e Agora, lançada no disco Refavela, de 1977, segue preceito inerente às filosofias do Oriente – “o melhor lugar do mundo é aqui e agora / (...) quando ser leve ou pesado / deixa de fazer sentido”. Reflexões acerca dos estados de transcendência da mente e do espírito se estendem ainda a Retiros Espirituais (onde “ter problemas é o mesmo que não”) e Meditação, ambas de Refazenda (75).

O Seu Amor foi escrito para os Doces Bárbaros, grupo que juntou Gil a Caetano, Gal e Bethânia, em 1976. A canção reprocessa o lema militar Brasil ame-o ou deixe-o em termos bem mais libertários: “o seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar”. A política também se faz subliminar em Copo vazio - lançada por Chico Buarque no LP Sinal Fechado (76) – onde o “ar vazio de um rosto sombrio está cheio de dor”.

Ainda dos anos 70 estão O Compositor Me Disse, obra pouco conhecida, lançada no disco ao vivo de 1974; Rebento (onde o coração “dizendo bata, a cada bofetão do sofrimento” assume a postura da não-violência) e Super Homem, a Canção, que subverte a razão Nietzschiana pela sensível lógica feminina, são de Realce (79).

Cérebro Eletrônico, do LP tropicalista de 1969, é o retrato de um período em que o homem pisava a lua, e levitava temeroso de que no futuro fosse subjugado pela máquina. Seguindo a trilha de George Orwell e vislumbrando Matrix, Gil supera o temor pela condição humana: “cá com meus botões de carne e osso / eu falo e ouço / eu penso e posso”.

Se a Raça Humana é “uma semana do trabalho de Deus”, no paradoxo entre a beleza e a podridão, é pelo Tempo Rei que se transformam velhas formas do viver. Ambas as canções são do álbum Raça Humana (84). Metáfora (“quando o poeta diz meta / pode estar querendo dizer o inatingível”) é do disco Um Banda Um (82).

Você e Você recorre ao oráculo chinês I-Ching para representar a contradição interna do indivíduo: “você que ataca pra se defender / que beija a lona pra poder vencer”. A canção, de 1993, foi lançada por Gal Costa no CD “O Sorriso do Gato de Alice” e tem neste Gil Luminoso a primeira versão gravada pelo autor.

O som da Pessoa (83), com letra de Gilberto Gil e música de Bené Fonteles, reverbera a luminosidade evidenciada ao longo de todas as canções do álbum: “Qualquer pessoa soa / toda pessoa boa soa bem”. Melhor encerrar pela maiêutica do parceiro Caetano Veloso: “Gilberto Gil crê em Deus. Eu creio em Gilberto Gil”.