Gilberto Gil empresta seu talento para atualizar as vertentes do forró

João Pimentel

Um disco inteiramente dedicado aos ritmos nordestinos como o xote, o maxixe e o baião, lançado no período junino, pode parecer uma jogada oportunista. E talvez até seja mesmo. Em mais um tributo, desta vez não a um artista como fez com Bob Marley e Luiz Gonzaga, mas a um gênero musical que há muito deixou de ser regional, Gilberto Gil se impõe pela sua personalidade e por seu talento. E "Fé na festa" não é um disco solto dentro de sua obra. Pelo contrário, ele flerta diretamente com seu CD anterior, "Banda larga cordel".

A ótima "O livre atirador e a pegadora" tem a mesma linguagem e temática modernas do xote "Despedida de solteira", que, sabe-se lá por quê, passou em branco. Se no trabalho passado ele cantou "Não tenho medo da morte", neste ele enfrenta outro desafio em "Não tenho medo da vida". O forró de Gil tem assinatura, tem o violino e a rabeca de Nicolas Krassik, tem a sanfona de Toninho Ferragutti e tem criatividade de sobra.

Ele passeia com total liberdade e autoridade sobre os ritmos e desfia sua inventividade nas letras e melodias, respeitando a receita da simplicidade aliada à sofisticação ensinada por mestres como Gonzagão e Jackson do Pandeiro. Em "A estrela azul do céu" Gil fica em cima do muro, entre a beleza lúdica do balão subindo e o perigo que representa para as florestas. "A fila anda, a vida vai/ Propondo a mutação/ Então, de repente, ficou diferente a noite de São João".

Mas a preocupação ecológica é direta em "Marmundo". "Vinte e seis", uma música que fala de seu aniversário, em junho, dois dias depois de São João, é um dos melhores momentos do disco. Das regravações, destaque para "Norte da Saudade", dele com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque.

in "O Globo", 01.06.2010

Crítica - Fé na festa ****
Forró para o ano todo

Rosualdo Rodrigues

Nem os universitários que cultuam o pé de serra nem as megabandas eletrônicas. As experiências mais interessantes de atualização do forró estão em discos conceituais, como este Fé na festa. Gilberto Gil não é forrozeiro, mas para ele a música difundida por Luiz Gonzaga é, além de influência, uma referência afetiva. Ao longo da carreira, o baiano tem assimilado o forró sem prendê-lo a um nicho, mesmo ao fazer discos como As canções, de Eu, tu eles (2000), ou São João vivo (2001), especialmente voltados ao gênero.

Isso se repete em Fé na festa, que se configura não apenas como um disco de forró, mas de música pop e moderna, ainda que gravite em torno do clima festivo nordestino do mês de junho. Na sonoridade, colabora o fato de Gil trabalhar com músicos que não estão necessariamente ligados ao forró, mas de talento e versatilidade notórios, como o acordeonista Toninho Ferragutti e o rabequeiro Nicolas Krassik. Ao mesmo tempo, nas letras, o compositor investe na diversificação de temas, sem abrir mão da ludicidade típica do forró.

Fé na festa resulta num álbum musicalmente colorido como as festas juninas, mas que extrapola o caráter de disco de época. Aliás, uma das músicas resume bem o que acontece quando Gilberto Gil cai no forró: “Não posso fazer feio, não/ Isso eu aprendi com o rei” (Aprendi com o rei, de João Silva). Gil aprendeu mesmo, e não podia fazer mais bonito.