Copo vazio

Gilberto Gil

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar

É sempre bom lembrar
Guardar de cor
Que o ar vazio de um rosto sombrio
Está cheio de dor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor
Que a dor ocupa a metade da verdade
A verdadeira natureza interior
Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar


© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá)

ficha técnica da faixa:
voz e violão: Gilberto Gil

Outras gravações:
"Dez canções", Adriana Maciel
"Lisboa-Rio", Antonio Chainho, Movieplay
"Sinal fechado", Chico Buarque, Universal Music
"As raras e assinadas", Zizi Possi, Polygram Music
"A musica de Gilberto Gil", Chico Buarque, Fontana/Polygram 1977
"Coleção Chico Buarque", Chico Buarque, Sony Music 2010
"Historia da MPB", Gilberto Gil, Abril Cultural 1982
"O rancho do novo dia", Gilberto Gil, Philips 1981
"Ao vivo", Gilberto Gil, Polygram Music 1998
"Giluminoso", Gilberto Gil, Biscoito Fino 2006
"A arte de Gilberto Gil', Gilberto Gil, Universal Music 2005
"Série gold", Gilberto Gil, Universal Music 2002
"Ao vivo", Gilberto Gil, Universal Music 2000
"O seu amor", Gilberto Gil, Universal Music 2004
"Lugar comum", Gilberto Gil, Universal Music 2008
"Rio Eu Te Amo - t.s", Sony Music, Gilberto Gil e Chico Buarque 2014
"Gil na delas", Zizi Possi, BMG 2005
"As raras e assinadas", Zizi Possi, Polygram 1995
"T.s vidas em jogo", Zizi possi, Record 2011
"Songbook Gilberto Gil - vol 3", Zizi Possi e Helio Delmiro 2015


"Chico Buarque estava sendo hipercensurado naquele momento, e quis responder a isso fazendo um disco só com músicas de colegas. Por isso pediu a Paulinho da Viola, a Caetano, a mim e a outros que compusessem para ele.

"Eu estava em casa, sentado no sofá, já de madrugada. Tinha tomado um copo de vinho no jantar, e o copo tinha ficado na mesa. Pensando no que é que eu ia fazer pro Chico, eu de repente vi o copo vazio e concentrei o olhar nele para dali extrair emanações de imagens e significados, a princípio como se para nada obter, mas logo constatando: 'O copo está vazio, mas tem ar dentro'. Disso me vieram idéias acerca das camadas de solidificação e rarefação que vão se sucedendo nas coisas - e disso, a música.

"A letra faz uma viagem ao mundo das coisas sutis, transcendentes, mas suas primeiras frases são muito significativas em termos do que estava acontecendo: regime de exceção, censura, o Chico privado de sua liberdade artística plena etc. Embora não fosse essa a intenção principal, as dificuldades da situação contingencial estavam necessariamente metaforizadas, e qualquer crítica à canção em termos de fuga da realidade esbarraria no fato de que, ao contrário, a letra parte da realidade e não foge dela; foge com ela, se for o caso..."