Metáfora

Gilberto Gil

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora


© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá)

ficha técnica da faixa:
voz e violão: Gilberto Gil

Outras gravações:
"Cada tempo em seu lugar", Cacala Carvalho e João Braga, Mills Records 2012
"Somos o amanhã", Coral Infantil, Ass. Cult. Canarinhos Da Amazônia 2003
"Água pura da fonte", Elisa Queiroga, Elisa Queiroga Barros 2002
"Bandadois", Gilberto Gil, Gege Produções Artísticas 2009
"Caixa a conspiração de Gilberto Gil - CD bandadois", Gilberto Gil, Gege Produções Artísticas 2010
"Giluminoso", Gilberto Gil, UNB 1999
"Um banda um", Gilberto Gil, Warner Music 1993
"Movimento circular", Gilberto Gil, Maria Ignes Senne Costa 2005
"Herança", Gilberto Gil, Perfil 2003

"Metáfora é metalinguística: o poeta falando sobre a poesia: sobre a própria linguagem poética a se desvelar, se dizer o que é, se revelar.

"Uma canção que transcende ao propósito genérico da minha obra que é ser uma obra de compositor, como se houvesse um ligeiro deslocamento do ser poético para cima do ser musical, ou talvez para o lado; de todo modo, um deslocamento qualquer que lhe dá distinção."

"Metáfora: uma palavra com contundência sonora, traduzida diretamente do grego."

Inspiração durante a elaboração - "Só um ano, ou mais, depois de escrever o primeiro terceto num caderno e deixá-lo de lado, eu retornei à letra. Desde o início eu queria falar do significado da poesia - poetar o poetar -, mas até ali a palavra 'metáfora' ainda não tinha me ocorrido. Foi somente quando, ao começar o segundo terceto, surgiu a idéia de 'meta', que o termo me veio, e com ele a consciência de que, dali em diante, eu passaria a construir a letra para chegar à palavra 'metáfora' no fim - para culminar com ela e com ela titular a canção."

Dúvidas de percurso - "Enquanto escrevia, eu relutei em usar 'tudo-nada' [aqui, tal como o composto foi grafado no encarte do disco com a música] como uma palavra só, mas resolvi mantê-la assim para marcar a idéia da condensação dos sentidos, por mais opostos, num mesmo e único termo; só faltou radicalizar tirando o hífen e deixando 'tudonada', grafia [sugerida pelo coordenador deste livro] que passo a adotar. Outra relutância foi em admitir a brincadeira contida no verso 'deixe a sua meta fora da disputa' - o desmembramento da palavra antes de ela aparecer. Pareceu-me de início gratuito, mas acabei achando engenhoso."

À patrulha ideológica - "Eu queria responder às cobranças, que nos eram feitas na época, de conteúdos mais dirigidamente politico-sociais, e falar da independência do poeta; do fato de a poesia e a arte em geral pertencerem ao mundo da indeterminação, da incerteza, da imprevisibilidade, da liberdade, do paradoxo. O poeta Haroldo de Campos se identificou com a canção, que de fato é sobre - e para - todos nós: eles, os concretistas, que foram atacados pelos conteudistas, e nós, os baianos, que abraçamos a causa deles."