Não tenho medo da vida

Gilberto Gil

Não tenho medo da vida, mas, sim, medo de viver
Eis a loucura assumida, você há de imaginar
É que a vida atou-se a mim desde o dia em que eu nasci
Viver tornou-se, outrossim, o modo de desatar
Viver tornou-se o dever de me desembaraçar

A vida é somente um dom independente de quem
Seja capaz de gritar seu nome, alto e bom som
A vida seria um tom, uma altura a se atingir
Viver é saber subir, alcançar a nota lá
Lá no ponto de ferir, se preciso, até sangrar

Não tenho medo da vida, mas medo de viver, sim
A vida é um dado em si, mas viver é que é o nó
Toda vez que vejo um nó, sempre me assalta  o temor
Saberei como afrouxá-lo, desatá-lo eu saberei?
A vida é simples, eu sei, mas viver traz tanta dor!

A dor na carne e na alma, a calma a se propagar
A durar dia após dia, a varar noite, a dormir
A ver o amor a vir a ser, a ter e a tornar
A amanhecer de novo e de novo um novo dia…
Isso às vezes me agonia, às vezes me faz chorar


© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá)

ficha técnica da faixa:
voz, violão, violão Sadowsky e guitarra: Gilberto Gil
cavaquinho, guitarra, banjo, guitarra baiana, sitar e viola de 12: Sérgio Chiavazzoli
percussão e Handsonic: Gustavo di Dalva
baixo: Arthur Maia
coro: Angela Lopo
zabumba, percussão e coro: Jorginho Gomes
violino e rabeca: Nicolas Krassik
acordeom: Toninho Ferragutti
coro: Tita Alves

BR-GPG 10 00011