Contra os privilegiados

Pedro Alexandre Sanches

Para Gil, a classe dominante reage à “discriminação positiva” do MinC

Ele diz que veio da “classe dominante” para “fazer um deslocamento”, “um trabalho que é outro”, diferente do que realizou nas últimas décadas como músico e personalidade da cultura. Em entrevista a CartaCapital na segunda-feira 9, o cantor e compositor tropicalista Gilberto Gil, ora ministro da Cultura, procurou demonstrar que a missão em que parece estar imbuído não é retórica, mas real.

Uma evidência seria o fato de que os críticos mais ferozes e renitentes das atuais políticas (ou da falta delas, segundo os opositores) têm nomes como Ferreira Gullar, Luiz Carlos Barreto, Marco Nanini e até mesmo o amigo e parceiro histórico Caetano Veloso.

“Os artistas consagrados e bem-sucedidos não gostam de ser elencados na classe dominante, mas são. Nós somos classe dominante”, provoca o ministro, incluindo-se na elite, a boiar nas contradições. E tenta, na entrevista a seguir, explicar sob o fio dessa lógica a hostilidade da imprensa e a zanga dos “privilegiados” contra sua gestão num ministério que, segundo ele, se empenha em inverter a lógica dominante e “atender áreas periféricas que nunca foram atendidas”.

CartaCapital: As críticas que o Ministério da Cultura vem sofrendo e revidando voltam a falar em “centralização”, “stalinismo” e “totalitarismo”. Que há por trás delas?
Gilberto Gil: Acredito que essas queixas são em relação ao atendimento geral que o ministério e as estatais vêm dando aos filmes, adotando políticas públicas de fomento um pouco mais abertas e democráticas. Zelito Viana é que vai ter de explicar por que pediria minha cabeça. Não vejo nada por trás, a não ser questões políticas, que podem ser trazidas para cá. Há o setor tucano contra o PT e a gestão Lula, a campanha política que vem aí. No momento em que já se põe a questão da sucessão, os descontentamentos se transformam em antagonismo político real. Há setores da área cultural que participam desse conflito.

CC: Nos últimos meses, sua gestão foi criticada sucessivamente por Paulo Autran, Marco Nanini, Gerald Thomas, Ferreira Gullar, Caetano Veloso, todos representantes da elite da cultura brasileira. Por que estes estão especialmente críticos?
GG: Acho que tem a ver com a discriminação positiva, digamos assim, que estamos tentando fazer, focando áreas que não eram focadas e, portanto, estabelecendo um conflito distributivo com esses setores. É um conflito que não existia nessa intensidade antes, porque eles tinham acesso a recursos que estão sendo redistribuídos. Estamos tentando trabalhar com um pouco mais de atendimento periférico, com os Pontos de Cultura, as políticas para museus que estamos descentralizando. O programa Monumenta está fazendo trabalho de patrimônio histórico em cidades do interior de Minas Gerais, Sergipe, Bahia, Maranhão, Rio Grande do Sul... É a característica seletiva do governar.

CC: Seletiva e descentralizadora? Gullar critica o MinC justamente pelo inverso, por ser supostamente centralizador.
GG: Não vejo isso. Eu queria uma demonstração desse caráter centralizador do ministério. Eu mesmo preciso saber. O que nós estamos centralizando? O próprio Gullar diz que não acompanha nosso trabalho, que tem notícia do que estamos fazendo por outros. Isso tem a ver também com a dificuldade de informação que nós temos, que, aliás, é uma dificuldade geral do governo Lula. Há uma dificuldade de mostrar o que está sendo feito. Isso tem a ver com deficiências do próprio governo, mas também com uma dificuldade de encontrar espaço na mídia.

CC: Devida a quê?
GG: Acho que é uma indisposição generalizada contra o governo. A pauta positiva não é uma preferência, as pautas negativas têm muito mais apelo e interesse jornalístico. É esse absolutismo consentido com que trabalha a mídia, que pode tudo, pode dizer, desdizer, manipular, fazer e desfazer e contra isso não há grandes insurreições. Com relação ao governo, ao contrário, ele está o tempo todo sendo questionado sobre seu modo de agir.

Confira a íntegra dessa entrevista na edição impressa



in Revista Carta Capital, 18.01.2006
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