Gilberto Gil, um mensageiro da ciência

Claudia Sisan e Cristiane de Magalhães Porto

O Mensageiro Gil traz em suas composições temáticas recorrentes que remetem a cultura científica

Da canção popular brasileira, Gilberto Gil seria o Hermes da Ciência, ou ainda o trovador do período Medieval, ou ainda um griot músico. Atualizando para o nosso contexto, brasileiro e baiano, seria o Exu, o mensageiro entre o astral e a terra, o guardião entre o plano material e espiritual, o que transita em todos os planos que existe nos mundos visíveis e invisíveis.

Gil o Mensageiro com seu princípio, a origem, a gênese, a contínua relação recorrente entre a tradição e o contemporâneo. O Mensageiro Gil traz em suas composições temáticas recorrentes que remetem a cultura científica. Talvez um sentimento do artista preocupado com o avanço da ciência, das tecnologias e com os desígnios da humanidade.

Com temática presente em sua vasta discografia de quase 66 registros e, um repertório em torno de mil músicas, podemos dizer que o seu legado em poesia, inovação e excelentes musicais (groove e levadas com um bom encadeamento de acordes), geralmente sustentadas por uma base rítmica afro-brasileira.

Numa sociedade brasileira com tantas complexidades históricas como a nossa, com uma educação que não é prioritária para seus governantes, onde a divulgação científica não é eficaz, seja por causa da inexistência de educação científica, passando pela dificuldade dos jornalistas em transformarem textos densos em leituras mais acessíveis, encontrar canções que façam este papel de divulgação (mesmo sem querer), é fundamental, tendo em vista num País onde o analfabetismo faz parte da pauta dos diários brasileiros. Estas questões passam pela formação do jornalista, pela formação do professor e do analfabetismo científico.

Constata-se que a divulgação Científica é tão importante quanto um lançamento de um livro. É preponderante considerar que a democratização do conhecimento amplia a discussão do cidadão de ter informação. A ciência é um bem cultural, porque a divulgação científica passa pelo contexto sócio-econômico, ou seja, pelo momento histórico.

Etimologicamente, canção vem de encantar e ciência vem de conhecer, conhecimento, aparentemente diferentes – a Ciência contemporânea nos ensinou assim, campos separados, departamentalizados, parecem distantes, conceitos que se alongam e que não se cruzam aparentemente.

A ideia das duas juntas é antiga. No século IV a.C. Platão e Aristóteles já discutiam sobre o conceito de Arte e Ciência. Para eles, “Arte” era um ofício. Platão acreditava que Arte e Ciência eram indissociáveis, porém, no seu entendimento, a primeira era imitação e, por isto, não podia ser interpretada. Já Aristóteles se opôs a esta concepção, quando acreditava que estas duas dimensões não se relacionavam.

Gilberto Gil sempre manteve a inovação como tônica no seu trabalho. Desde o período da tropicália, onde logo começou a compor músicas que refletiam um novo foco de preocupação política e ativismo social, ao lado do parceiro Caetano Veloso.
Nas canções de Gil percebemos que a dimensão cultural adquire uma multiplicidade de aspectos que permite ultrapassar a simples conceituação, que para empreender o esforço de revelar as tensões que lhe determinam e revelam uma polissemia aliada à multiplicidade de significados. Dentro disso, destacam-se algumas canções que foram recortadas e trazidas para esse contexto, a fim de ilustrar o que propomos.

O Álbum GIL ao VIVO de 1974, na faixa CIBERNÉTICA. Vejamos um trecho:

Cibernética /Eu não sei quando será /Cibernética /Eu não sei quando será /Mas será quando a ciência / Estiver livre do poder /A consciência, livre do saber /E a paciência, morta de esperar

De 1985 pela gravadora WEA, o disco Dia dorim Noite Neom traz a canção Logos versus logo. Em 1989 pela WEA o álbum O eterno deus Mu dança traz também uma canção que faz alusão as máquinas e a tecnologia, chama-se Do Japão. Já em 1992, lança o álbum Parabolicamará pela Warner Music que traz como carro chefe um trecho da canção abaixo:

Antes mundo era pequeno/ Porque Terra era grande /Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena /Do tamanho da antena parabolicamará /Ê, volta do mundo, camará /Ê-ê, mundo dá volta, camará

Mas é o álbum Quanta em 1997 pela Warner music que traz um leque maior de canções com temáticas que remetem ao universo científico. Um álbum duplo, no disco 1: Quanta, Estrela,Dança de Shiva, Água Benta, Pílula de alho, Opachoró, Graça divina, Pela internet, Guerra Santa Chiquinho Azevedo, Objeto sim, objeto não. No disco 2: a ciência em si, Átimo de pó, Fogo líquido, Pop wu wei, O lugar do nosso amor, De ouro e marfim, Sala do som, Um abraço no João, O mar e o lago, La lune de Gorée, Nova.

Em 1972 o álbum O Viramundo (ao vivo), traz uma canção que ainda era a reminiscência do álbum passado, a canção era: Queremos saber. Podemos registrar ainda outras canções com as mesmas temáticas como: 2001, Desafio do lixo, Era nova, Homem de Neandertal , Meteorum, O Cometa.

Em sua letra Gil lembra que [...] “teoria em grego quer dizer o ser em contemplação”[...] e não podemos esquecer que os gregos explicavam em sua época os fenômenos científicos, ou pelo menos tentavam a luz da filosofia. Quando então no refrão ele diz: “Cânticos dos quânticos” faz menção a relação de ciência e arte (o entrelaçamento), que logo em seguida confirma, num trecho seguinte [...] sei que a arte é irmã da ciência, ambas filhas de um Deus fugaz, que faz num momento, e no mesmo momento desfaz .

É bom lembrar que a religiosidade e a crença em Deus é outro fator muito presente em toda obra de Gil. A preocupação com a existência é proeminente em toda a sua obra. Existe uma preocupação nítida e reincidente do compositor em tratar de tais questões.

No site mentalidade, um produtor de conteúdo escreveu sobre a canção Pela Internet:

“Esses versos da letra da música “Pela Internet”, do cantor Gilberto Gil, combinam bem com quem pretende criar ou já tem um blog ou site, e exibe suas matérias online para os visitantes.Para criar um website são necessários alguns megabites, ou até gigabytes, ofertados pelo servidor de hospedagem, para que o site possa funcionar e disponibilizar seus recursos online, tanto em armazenagem de arquivos, como em tráfego, usado pelo blog ou site.”

Portanto, a profecia do Griot, ou do Hermes, de Exu, ou do trovador se concretiza quando mais pessoas conhecem a ciência. A arkhé é o principio de tudo e talvez seja um início para uma população com problemas tão graves de educação e de acesso a informação, apesar de paradoxalmente vivermos na Era das novas Tecnologias.

*Professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) Mestre em Educação e pesquisa – Université Du Quebéc a Chicoutimi- Canadá, estudou Composição e Regência na Ufba

**Professora titular da FTC – Salvador, onde atua como professora do Núcleo Permanente do Mestrado Profissional em Bioenergia e editora-chefe da Revista Diálogos & Ciência



in cienciaecultura.ufba.br, 21.07.2011
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