Tropicalismo

Gilberto Gil


A atuação revolucionária quase sempre está associada à quebra repentina de um padrão. Foi isso que aconteceu na Tropicália. Há, porém, uma forma menos perceptível de revolução, que se engendra nos pequenos pontos de inflexão da vida cotidiana, na fenomenologia dos microfatos transformadores de cada dia. Talvez, neste sentido, de uma pequena contribuição permanente ao curso das mudanças, eu ainda possa me ver como um revolucionário em meio a tanta coisa revolucionária suspensa no ar. O tempo da Tropicália era o de um Brasil em fase de intensificação do processo de modernização, num mundo em fase de grandes transformações políticas, sociais e econômicas. A vida cultural do país sofria o impacto dessas transformações na cultura internacional e, por sua vez, impactava de volta toda a vida nacional brasileira. A literatura e a música, o teatro e o cinema, o esporte e as comunicações, o consumo e o comportamento, tudo na vida era objeto das atenções coletivas, tudo era cenário para novas formas de expressividade cívica, tudo era laboratório para experiências de emancipação e desenvolvimento. Era o desejo e o impulso para modernização tardia que precisávamos fazer para que o país alcançasse o patamar de nação avançada. Havia pressa e sofreguidão. Havia orgulho pelo genuíno e espontâneo da nossa cultura, pelo criativo e inusitado do nosso modo de ser, pelo lugar particular e destacado que poderíamos vir a ocupar no mundo que começava a nova globalização. Hoje, chegamos ao tempo pós-moderno ainda com imensas tarefas das fases anteriores da história por realizar, mas já tendo muito que apresentar neste contexto de interdependências e compartilhamentos compulsórios que caracteriza o mundo contemporâneo. A nossa cultura tem vantagens para os dias atuais, advindas de uma certa desvantagem remanescente dos tempos da modernização inconclusa de ontem. Ou seja, o Brasil, poderá vir a se beneficiar do que deixou de fazer ontem, por poder fazê-lo agora de maneira mais nova. O Brasil pode tirar partido do seu próprio paradoxo, do seu próprio viés assimétrico, para chegar mais rápido a um lugar central num mundo de paradoxos compartilhados e assimetrias globalizadas.

in: VÁRIOS, curadoria Arnaldo Niskier "Livro 100 palavras para conhecer melhor o Brasil", Instituto Antares, 2008. ISBN:978-85-62236-00-6



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