A mensagem de Gilberto Gil

Cantor e compositor diz que usa a música para se fazer compreender

Um homem tranquilo, simples e aberto a metamorfoses sucessivas. São traços que Gilberto Gil carrega, frutos de anos de exposição pública e de viagens introspectivas que o fizeram chegar a conclusão: "Meus braços e pernas vão à lugares inimagináveis, não me seguro em um lugar, sendo uma coisa só. Esse meu jeito, difícil de se fazer compreender, ganha voz na música. É com o som que me mostro e sou aceito pelo mundo". Camaleônico, Gil está no mundo, zela por mudanças e não tem medo de experimentar. É por isso que seu último álbum, "Fé na Festa", mesmo remetendo ao tradicional forró ganha contornos contemporâneos. É esta alma inquieta que se mostra na entrevista a seguir, concedida à repórter Luiza Cabral:

Seu último disco, "Fé na Festa", faz referência a suas origens. Trata-se de uma proposta nostálgica?

- Definitivamente não. Ou melhor, não é este o adjetivo que mais confere ao disco. De fato é uma forma de assumir aquilo que sou, na verdade, é uma afirmação de um gosto pessoal. Digo que não se trata meramente de um saudosismo porque o disco é repleto de elementos inovadores e impulsionadores - tanto do ponto de vista temático como do ponto de vista técnico e musical. O "Fé na Festa" é resultado de uma vontade minha, eu quis fazer assim, misturar esses elementos. E isso fica claro, inclusive, nas letras de algumas músicas. Trago o debate sobre questões ambientais, há uma letra em que faço uma associação entre o velho animal de transporte nordestino com o novo, o mecânico. Enfim, o contemporâneo está presente neste trabalho. Mas confesso, claro, que os caminhos que escolhi para isto se referem diretamente a quem fui e ainda sou na essência e isso me diverte profundamente.

"Discos homenagens" são um forte de sua carreira. Como é o processo que o faz escolher um artista?

- O primeiro requisito, claro, é que são artistas que gosto muito. Luiz Gonzaga e Bob Marley são figuras relevantes na minha vida. Fazem parte do que sou e de como vejo o mundo. Sou um discípulo de Bob Marley, entendo muitas coisas através de uma proposta de irmandade que ele pregou. Faço homenagens utópicas a vários ídolos, menções que são bem mais simples. Mas estas homenagens maiores, de discos inteiros, só para pessoas que tem destaque absoluto na sua vida. Tenho vontade de fazer outros artistas, mas são projetos que ainda estão só no plano das ideias.

O que ainda te motiva como músico?

- Basicamente é porque gosto da emoção mesmo, da profunda dimensão emocional que a música remete. Me excita estar neste papel de realizador da canção. Na verdade, todo o processo que culmina na música me encanta. É minha forma de zerar o déficit da incompreensão que me cerca - de me fazer compreendido. Acredito que seja isso que me move ainda: o desejo profundo de se fazer entender. A música faz isso comigo como outras coisas não fazem. É como diz a canção: "Subo nesse palco minha alma cheira talco".

E o homem Gilberto Gil, quem é?

- Sou uma pessoa múltipla. Tenho muitos braços e muitas pernas - agarro muitas coisas, abraço o mundo. Escorrego pelos dedos da vida, deixo que ela escolha meu caminho, não me escondo. Este Gilberto Gil que passeia por tantos caminhos sou eu, é o reflexo das minhas convicções que me mostram que tudo está em movimento. Porém, mesmo escorregadio, sempre me prendo à confiança de que tudo vale. Quanto ao impacto das minhas ações e opiniões para o mundo, bem, sou o que sou e me faço válido através da minha música.

Qual é a sua relação com a cidade de Belém?

- Estive em Belém num período de muita intensidade da minha carreira. Participei de muitos shows na universidade, no Theatro da Paz. Criei laços com muitas pessoas. Adoro o Ver-o-Peso, a comida. É uma das cinco cidades que mais gosto do Brasil. E quanto ao show, eu quero ver um público curioso. O forró é energético. É para dançar. Espero estar animado para passar a todos essa força.



in O Liberal - PA, 02.09.2010
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