Um tropicalista sem fronteiras

Pedro Augusto Leite Costa

Basta desembarcar nos Estados Unidos que as luzes e sirenes da imigração se ativam. Gilberto Passos Gil Moreira, um senhor negro de 72 anos, resigna-se e é acompanhado pelos agentes até a salinha do Homeland Security (departamento de segurança interna dos EUA), onde é revistado e interrogado pelas autoridades da imigração até ser liberado.

Fica ali por 30 minutos até descobrirem, nos arquivos dos computadores, que sua prisão por portar uma bituca de cigarro de maconha foi no longínquo 1976, em Florianópolis (SC), quando o regime militar tomou-o como exemplo do combate às drogas. Como concede o guarda da fronteira, "os Estados Unidos vão liberar a sua entrada desta vez".

Provavelmente ali ninguém sabe que Gil, o homem que agora está no mais famoso restaurante de Seattle (EUA), Ray's Boathouse, para este "À Mesa com o Valor", é o cantor, compositor, multi-instrumentista, escritor, ex- ministro, ambientalista e, atualmente, uma das poucas unanimidades no Brasil (e em diversos lugares do mundo).

O músico baiano está acompanhado de sua mulher, Flora Gil (ou Flora Nair Giordano Gil Moreira), com quem teve os filhos Isabela (Bela Gil), Bem e José Gil e com quem, atualmente, costuma assistir a séries como a badalada "House of Cards" e "Scandal". Dona de um passaporte europeu por ser neta de italianos, Flora se debate, reclama do tratamento dos EUA, sugere que se lance uma campanha para eliminar o nome Gilberto Gil das chamadas pessoas perigosas que entram no país. Gil olha para a mulher como Leonardo da Vinci olharia para Monalisa. Cala-se, espera a tempestade passar e, se ninguém o solicitar, recolhe-se à contemplação da vida.

Com mais de 640 músicas, 57 álbuns e 8 Grammys, Gilberto Gil não tem medo da morte, mas tem medo de morrer, como canta em uma canção sua de 2008. "Estou diante da presença insidiosa da finitude", conforma-se. Também pai de Preta, Maria e Pedro (que morreu em acidente de automóvel em 1990), Gil mantém um olhar zen para o futuro. "Estou numa idade em que sei que não haverá tempo suficiente para fazer tudo, onde a humildade bate mais forte, onde as coisas vão se acomodando."

O cantor e compositor não se vangloria da sua genialidade musical ou de ter enriquecido a vida de milhões de pessoas com sua música. Bebe um gole de cerveja Indian pale ale - um simples copo é capaz de deixar muitas pessoas inconvenientes - para confessar: "Pouca gente sabe que tudo o que fiz foi para mim mesmo, para entender minhas questões e para me deixar feliz. Eu sou meu primeiro público". Se muita gente gosta, "é lucro", diz.

Os assuntos parecem tão urgentes que o garçom começa a se incomodar com a demora para o pedido. Sugere-se uma dúzia de ostras frescas e um prato de mexilhões ("Vir a Seattle e não comer peixe é como ir a Roma e não ver o papa", comenta-se). Gil, pessoa de fala mansa, espírito generoso e gestos nobres, mesmo consumindo meio copo da cerveja artesanal não fala sobre os outros e quase nada sobre si mesmo, mas filosofa incessantemente.

Magérrimo e bem-vestido, escolhe um linguado, aqui chamado de "halibut", outro prato típico da cidade. Flora, um salmão. Gilda Mattoso, assessora de imprensa e ex-senhora Vinicius de Moraes (1913-1980), uma sopa de moluscos. O fotógrafo Lorenzo Madrid sugere um vinho sauvignon blanc.

A conversa corre solta até no momento em que a pimenta é adicionada, o que ocorre quando o Brasil entra na pauta. Gil inflama-se, eleva o tom e proclama: "Neste mundo onde a soberania dos países é relativa, o Brasil vai ter que se adaptar à racionalidade global sem perder suas peculiaridades, a alegria, a celebração da vida, a cordialidade e a espiritualidade. O mundo precisa disso e nós precisamos do mundo - o mundo todo, todo o mundo".

Gil recorre à geografia para exercer o patriotismo. "O mundo precisa de recolhimento mineiro, da exuberância baiana, da racionalidade paulista e do encanto do Rio, uma porta aberta para a festa", diz. Para ele, a lógica da eficiência, do trabalho e da racionalidade do regime capitalista tem seu limite, precisa se reinventar. "Se as pessoas não olharem para o lado espiritual, teremos para sempre pilotos alemães deprimidos levando aviões a bater contra as montanhas", diz, referindo-se à queda do avião da Germanwings nos Alpes franceses no mês passado.

Quando foi ao Brasil, em 1943, o presidente americano Franklin D. Roosevelt (1882-1945) voltou tão impressionado, segundo Gil, que tentou implantar nos Estados Unidos esse "melting pot" brasileiro, um "amálgama de todas as raças e culturas - e eles estão tentando até hoje, sem conseguir".

Gil, como em "Refazenda" (1975), não fala, despeja poesia, constrói frases hiperbolicamente, brinca com palavras e pensamentos, como num carrossel que deixa todos à mesa em respeitoso silêncio. Gesticula bastante, olha para cima e para os lados à procura da melhor expressão e, quando não consegue recordar alguma coisa, vira-se para Gilda, uma enciclopédia musical ambulante que lembra datas de shows, encontros e quase tudo de marcante na vida de Gil.

Alguém conta a piada de que o Brasil está à beira de um abismo e agora, finalmente, está dando um passo à frente. Gil, sério, diz que "o país precisa sair desta morte diária do excesso de afrouxamento de tudo, necessita ter a dose diária de apertamento, voltar ao seu eixo, colocar a corrupção - que sempre houve - em níveis aceitáveis, níveis japoneses", brinca, "mas resolver antigos problemas abre portas para resolver novos problemas. O fim de um é o começo do outro".

Gil está nas estradas do Canadá e dos Estados Unidos percorrendo cidades de avião e em um ônibus adaptado. A turnê "Gilbertos Samba", em que se apresenta no palco ao estilo João Gilberto e ao lado do filho Bem, deixa as casas lotadas, reúne as comunidades brasileiras e, naturalmente, provoca a discussão sobre o Brasil. Já veio aqui dezenas de vezes desde a década de 70, quando estava exilado em Londres. Invariavelmente é barrado na fronteira, mesmo possuindo um apartamento em Nova York.

Flora, que também gerencia a vida profissional de Gil, interrompe e sugere que Pê, como ela chama o homem com quem está casada há 27 anos, belisque outros pratos e evite qualquer comida à base de lactose. Foi para essa mulher zelosa que Gil escreveu os versos "Toda aquela luz acesa/ Na doçura e na beleza/ Terei sono com certeza/ Debaixo da tua sombra/ Ô, Flora". A música "Flora" está no disco "Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)", de 1981.

É com doçura e beleza que ela pede que Gil fale sobre a situação dos direitos autorais no Brasil, especialmente o "streaming" em sites de busca, que, embora seja a melhor ferramenta de divulgação dos artistas, "não paga pelos direitos autorais". Gil, que diz ainda precisar trabalhar para viver, cala-se, admira sua Monalisa, delicia-se com a cerveja e o "halibut" até que é questionado sobre a presidente Dilma Rousseff.

"Há uma cobrança exagerada da opinião pública em cima dos indivíduos, uma esperança de que um salvador da pátria, com poderes imperiais, virá para nos salvar. É como se sempre estivéssemos adiando o encontro conosco mesmos, o encontro com a dificuldade. Veja o exemplo da presidente: o que Dilma pode fazer?", pergunta o ex- ministro da Cultura. "O problema não está no governo ou nas instituições, está em nós."

Mas não precisamos de resultados, de mudanças? "Esse é o problema da racionalidade, do pragmatismo positivista: a ideia de que tudo tem de ter uma solução. Toda solução é um problema, se resolve um antigo problema e se cria outro", diz, rindo copiosamente, o autor de "Retiros Espirituais", de 1975 ("Resolver tê-los é ter, resolver ignorá-los é ter"). "Não temos de ficar obcecados por soluções. Não se vai resolver tudo em uma geração, são as duas coisas ao mesmo tempo, precisamos entender a simultaneidade. Temos dificuldade para entender isso, o certo e o errado, ou aceitar o que Oswald de Andrade [1890-1954] já disse no 'Manifesto da Poesia Pau-Brasil' [1924] sobre a 'contribuição milionária de todos os erros'."

Gil discorda de que, no Brasil, "tudo está demorando em ser tão ruim", como versou em "Desde Que o Samba É Samba" (1993) seu amigo Caetano Veloso? É preciso ter paciência, diz. "Quando um recente líder chinês foi indagado sobre o impacto da Revolução Francesa [1789-1799], respondeu: 'É muito cedo para fazermos uma análise'", comenta, antes de mais uma risada. "Precisamos nos perguntar como construir um consenso entre vários interesses políticos, como se supera esse parlamentarismo branco, como não ficarmos submetidos aos interesses dos indivíduos - o que temos é um sistema que não funciona, é um sistema já caduco."

Quando fala sobre política, Gil evita citar nomes. Para ele, a mãe dos nossos problemas é o "sistema de presidencialismo de coalização", em que não se tem a necessária flexibilidade para mudar o comando sem traumatismos. "O PT é um partido que sucedeu vários outros que passaram pelo mesmo problema, não importa o personagem lá em cima. No parlamentarismo, a crise vai para dentro do governo e se resolve ali mesmo, não fica essa questão do impeachment de um poder imperial, não fica esse problema moral."

O caminho do meio, o caminho de Buda, está constantemente na fala de Gil. "Não há o certo e o errado, tudo corre ao mesmo tempo, tudo tem dois lados, toda solução é o começo de outro problema, assim é a vida", diz. Cita o filósofo francês François Jullien, "que criou uma expressão de que eu gosto muito: o justo meio está na igual possibilidade dos extremos".

Gil vê sua passagem pelo mundo político - vereador em Salvador pelo PMDB em 1989, ministro da Cultura (2003- 2008), ativista ambiental - como resultado "da ilusão de contribuir". Quando pergunto se voltaria à política, tergiversa, abaixa o queixo, como se procurasse as palavras no chão, até que entrega a decisão ao destino, ao "se for chamado", deixando a porta aberta para interpretações. Gil, que já foi um dos precursores da macrobiótica no Brasil e agora parece ter chegado à fase zen, não incorre em extremismos, sempre está do lado equidistante dos opostos.

O ex-ministro, no entanto, reforça a necessidade de o Estado financiar a cultura. Em países como Estados Unidos, onde a iniciativa privada assumiu responsabilidade acima de seus interesses, por meio de mecenas como Solomon R. Guggenheim (1861-1949), Henry Ford (1863-1947) e outros incentivando a arte, diz que tudo bem. Segundo ele, no caso da Europa e do Brasil, o Estado tem um papel, pois entregamos a ele mais responsabilidades. "Quando eu era ministro, financiamos a cultura para regimes desprotegidos, para setores cuja manifestação não interessa ainda ao sistema privado. A única solução é o Estado financiar."

Após beber mais um pouco de sua cerveja, Gil fala sobre os festivais da canção, dele cantando "Bom Dia" ("Acorda, meu amor, é hora de trabalhar") em 1967, em companhia da coautora e então mulher Nana Caymmi; da violência do crime passional de "Domingo no Parque" (1968), em que "o espinho da rosa feriu Zé, e o sorvete gelou seu coração"; ou de "A Paz" (1986), em companhia de João Donato, que chegou em sua casa com a fita com a melodia, dormiu e, ao acordar, uma das mais lindas letras de todos os tempos - feita por Gil - estava pronta. "A paz invadiu o meu coração/ como se o vento de um tufão/ arrancasse os meus pés do chão/ onde eu já não me enterro mais".

Gil não sabe explicar de onde sai a criatividade. Para ele, as coisas acontecem espontaneamente, sem muita razão. "Quando a canção não vem, fico no violão horas e horas até que ela aparece - dá muito trabalho às vezes, muita transpiração quando a inspiração não chega."

Com a idade, diz, a ânsia da criatividade arrefeceu, a produção diminuiu, mas, ao contrário de muitos contemporâneos, continua distribuindo boas surpresas até hoje. Gil já morou em Los Angeles durante um ano, onde deixou amigos como o produtor musical e fã Quincy Jones, e conhece personalidades como os bilionários Warren Buffett, Bill Gates e Jorge Paulo Lemann. Quando cantou durante sessão das Nações Unidas [em 2003], pediu ao ganense Kofi Annan [ex-secretário-geral da ONU] para tocar o tambor na última música. "Foi um grande momento", conta Gil, sorrindo.

Hoje está mais triste com os constantes aborrecimentos quando chega aos EUA, embora não deixe de elogiar a exuberância do país. Gil, neste momento, olha para uma das janelas do restaurante, localizado sob uma estrutura de madeira que boia na confluência entre o canal unindo a água doce do lago Washington e o oceano Pacífico.

Ele ouve dizer que os salmões, todos os anos, partem desse oceano para voltar aos rios, desovar e morrer, passando por debaixo do Ray's Boathouse, onde estamos. "É a questão da simultaneidade, não existe vida sem morte, não existe morte sem vida, querer separar uma coisa da outra é inócuo", comenta. "Também não existe Dilma sem Petrobras, Obama sem o Iraque... e por aí vai", completa Flora, rindo.

"O mundo reconhece a qualidade trágica brasileira. A gente quer se livrar da tragédia, temos de absorvê-la dentro da questão trágica, com contradições permanentes a superar - e tudo isso não é fácil. Nada cai do céu, tudo é difícil."

Flora pede, de novo, que Gil fale sobre direito autoral, sobre o não pagamento de "streaming" na internet. O músico, como sempre, não fala sobre árvores, mas sobre a floresta. Pede a mobilização de todos para eleger as melhores práticas, discutir se é conveniente manter o privilégio das "elites exploradoras que sempre levaram o barco até agora". Diz que a democracia horizontal, "sem essa baixíssima distribuição de poder e renda", é uma demanda global. "Ou o planeta faz isso ou vai escafeder-se", conclui.

Como está falando sobre questões de escala mundial, Gil comenta o sucesso da música brasileira nos Estados Unidos. Para ele, é hora de homenagear João Gilberto, "que concentrou voz e violão", Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli (1928-1994), Roberto Menescal e principalmente Tom Jobim (1927-1994), que ajudaram a criar o que se chama hoje de "latin jazz". Algo bem diferente dos tempos de Carmen Miranda (1909-1955) desfilando com salada de frutas na cabeça, "na verdade uma invenção de Dorival Caymmi [1914-2008], que recomendou essa indumentária para Carmen". "Se eles não tivessem existido, não estaríamos aqui."

Ao comentar a força da bossa nova, Gil lista influentes compositores americanos, como Jimi Hendrix (1942-1970), que é de Seattle, Bob Dylan e Quincy Jones. Cada vez mais, segundo Gil, o mundo já identifica a música brasileira e os diferentes estilos. "Algo totalmente oposto do tempo em que toquei forró em Nashville, Tennessee, o berço da música country americana."

"A música tem o poder de unir corações e mentes em todos os lugares. É importante que a nossa música seja reconhecida no mundo, é importante que a diversidade seja garantida", diz. O papel de Gil na cultura brasileira começou nos anos 60, quando, ao lado de Caetano Veloso, ajudou a criar o tropicalismo. Inovador e radical, o movimento assimilou a cultura pop aos gêneros nacionais. A crítica no campo político e moral acabou levando o tropicalismo a ser reprimido pelo regime militar: Gil e Caetano foram presos em razão do Ato Institucional no 5 e, depois, exilados.

Já fora do restaurante e agora dentro do carro, Gil, de volta ao estado contemplativo e admirando o movimento dos barcos no lago Washington, lembra que há tempos estava deprimido - "envolto em minhas questões" -, quando decidiu desistir da música e fazer outras coisas na vida. Para se despedir, escreveu a música "Palco" (Fogo eterno pra afugentar/ O inferno pra outro lugar/ Fogo eterno pra consumir/ O inferno, fora daqui/ Fora daqui), de 1981, e deixou-a num canto. Foi quando o grupo A Cor do Som o visitou e pediu para gravar a música, que estourou nas paradas. "Gosto de todas as músicas que fiz, mas 'Palco' é uma espécie de música-talismã para mim. A partir dela, tudo mudou."

Depois da turnê no Hemisfério Norte, Gil se unirá a Caetano para celebrar 50 anos de carreira ao lado do amigo. Começará pela Europa, em julho, até chegar ao Brasil em agosto e setembro. Se o pessoal da imigração continuar barrando-o na fronteira, pode não voltar mais aos Estados Unidos.



in Valor Econômico, 24.04.2015
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