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O cérebro de digital Gil

RIO - O Festival CulturaDigital.Br, que vai de hoje a domingo no Museu de Arte Moderna e no Cine Odeon (a programação está no site culturadigital.org.br), escolheu Gilberto Gil embaixador do evento. Para o diretor geral, Rodrigo Savazoni, ele é um líder, por ter, à frente do Ministério da Cultura (2003-2008), concebido políticas baseado na sua “rendição à inevitabilidade da novidade tecnológica”, como diz nesta entrevista.

Gil também afirma que as reações às suas ideias lembram as que sofria na época do tropicalismo, depois absorvidas; que é inevitável, como em outros momentos de avanços tecnológicos, o desaparecimento de criadores; e diz não estar acompanhando com profundidade a gestão de Ana de Hollanda, que reverteu parte de suas iniciativas ligadas ao mundo digital.

Ele ainda está liberando o seu acervo pessoal, de cerca de 30 mil itens, na página www.jobim.org/gil, que será oficialmente lançada na próxima quarta-feira, com um show no Espaço Tom Jobim. Mas a liberação de seus fonogramas para remixes continua emperrada, segundo ele, por causa da objeção das grandes companhias, como a Warner, que detém 70% de suas gravações.

E Gil diz ter ficado feliz com as mudanças feitas por Criolo em “Cálice”, música sua e de Chico Buarque — que fez novas mudanças para saudar o rapper. “O Chico podia sair xingando: ‘não, seu filho da mãe, mexeu na minha letra.’ Os tempos não favorecem mais essas atitudes empedernidas. A atmosfera é liberal e, portanto, liberalizante.”

A maioria dos participantes do Festival CulturaDigital.Br é afinada com os avanços digitais. Será que há espaço para controvérsia?

GILBERTO GIL: Em geral, os proativos agem favoráveis ao novo, a ajudar a compreensão, ao advento da novidade. São pró. E os negativos são recuados, trabalham mais no establishment, nos lobbies, na tentativa de manutenção do status quo. Estes aparecem menos, preferem trabalhar nas casas legislativas, nos lobbies empresariais, junto a agências de governo, ministérios, secretarias.

Você está falando de grandes grupos empresariais e também de artistas?

Há proativos e reativos também na classe artística. Os impactos na área das artes veiculadas através de música e imagem são grandes. E há um setor reativo que vai desde as companhias interessadas, exploradoras do processo industrial e comercial, até os criadores, aqueles que fornecem a matéria-prima para essa produção. São os artistas, os técnicos.

Você se assume como líder dos que chama de proativos?

Não. O que tenho feito, a partir de uma rendição à inevitabilidade da novidade tecnológica, é, dentro desse equilíbrio entre impulsos pró e contra, chamar a atenção para o interesse necessário para essas coisas.

No ministério, você tomou um partido nesse debate, o que lhe custou conflitos com colegas como Ronaldo Bastos, Fernando Brant e Aldir Blanc. Foi um custo alto?

Foi um custo necessário, como sempre. O tropicalismo já tinha sido isso. Não foram poucos os colegas que torceram o nariz, estranharam. Mas isso foi sendo absorvido. Acho que é exatamente o que está acontecendo, a história se repete. É inevitável que devam ter ocorrido excessos de todos os lados, tanto do nosso, no sentido de manifestar entusiasmo diante dessas novidades, quanto do outro. O que muda é o estilo. Eu nunca saí xingando ninguém, gritando contra ninguém. Os outros gostam, confundem, vão bater no fígado, levam para uma coisa biliosa. Não gosto de brigas pessoais por causa dessas coisas.

Com os avanços digitais, os compositores, que não fazem shows e dependem de direitos autorais, ficam prejudicados.

Não é um fenômeno novo. A cada intensificação da maquinização, o lado humano vai ficando difícil. As críticas ao capital no século XX são eivadas dessas atitudes receosas em relação às novidades: “Vai tirar do mercado uma quantidade significativa de criadores, produtores.” Não tem jeito, é assim. As fábricas fizeram isso com os trabalhadores manuais. O sentido fabril e o mercantil estão sempre trombando com o lado humano.

E como gerar renda para esses artistas?

Não é só o problema da renda. À medida que se intensifica o uso do sampler, do mash-up, do fragmento do que já existe para confecção da obra nova... São impactos na própria essência do que se considera criação. Como cedemos espaço aos mecanismos e em que medida preservamos o espaço para o manual? Não adianta ser só reativo. Quando os aviões surgiram, os homens do campo nos EUA quiseram embargar, porque provocavam problemas no rebanho, os animais se assustavam. É por isso que é preciso haver os fóruns, o debate. Os proativos tentando convencer os reativos e vice-versa. É isso que se chama civilização.

No texto para o festival, você escreve, em relação a alguns tópicos, que “não há razão para voltar atrás” e que “precisamos enfrentar essa revolução sem medo”. Há recuo e medo na gestão de Ana de Hollanda?

Não sei. Não tenho acompanhado nesse sentido profundo de ter o cuidado de avaliar o ministério quanto ao legado deixado por nós.

Não tem por falta de tempo ou falta de interesse?

É por cuidado político. Não quero fazer com que a minha condição de ex-ministro pareça interferir no novo momento político e de gestão. Deixa o ministério trabalhar.

É cuidado com Ana, Dilma?

Com todos. Com o fato de que somos ex. Os ex precisam entender que são ex. Não temos que atuar como atuávamos quando éramos titulares. Um ex-ministro deve ser visto como ex-ministro, e não tentando ser ministro ainda. Meu papel era fazer o que fiz. O papel dos que estão lá é fazer o que fazem.

O que achou da proposta de Lei de Direito Autoral preparada pela equipe de Ana?

Não li, mas soube que grande parte do que tínhamos feito foi mantido. Ótimo, parece um bom sinal, pelo menos do ponto de vista do legado.

Mas houve mudanças significativas, como não prever um instituto dentro do ministério para fiscalizar entidades como o Ecad?

Pode ser que a ideia de ter uma entidade fiscalizadora fosse excessiva e que a não adoção dessa entidade seja um ponto de equilíbrio. Como nasce essa versão final da proposta de lei? De um entendimento amplo da sociedade? De um equilíbrio entre as posições? Então, pronto, é isso. E vai ao Congresso. Permite que os reativos trabalhem na encolha e os proativos trabalhem na praça.



in O Globo - RJ, 02.12.2011
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