Três mil espectadores assistiram a um recital inédito de Gilberto Gil

Irlam Rocha Lima

Três mil privilegiados espectadores assistiram, gratuitamente, a um show histórico na noite de terça-feira, no Auditório Master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Gilberto Gil preparou um recital inédito — e único — para o 1º Festival Internacional de Artes de Brasília, e emocionou a todos ao passear por sua obra, uma das mais importantes e representativas da música popular brasileira.

Mesmo tendo caráter revisicionista, o espetáculo — no qual o cantor e compositor baiano contou com o apoio fundamental da percussão de Gustavo di Dalva — soou como novidade em função, principalmente, dos arranjos que foram criados. Junte-se a isso o fato de Gil ter interpretado canções que nunca fizeram parte de seu repertório, embora sejam de sua autoria: Abri a porta (ouvida na abertura), e Meu coração, compostas em parceria com Domiguinhos e Pepeu Gomes, respectivamente.

De guitarra em punho (ele ficou quase o tempo todo sentado), o tropicalista — que completa 70 anos em 26 de junho — exibiu jovialidade e interagiu com a plateia, convocando-a a participar do show. Os fãs, obviamente, aceitaram o desafio e ora o acompanharam fazendo vocalize, ora com palmas ritmadas, criando clima de absoluta interação. Mas não faltaram inoportunos, que queriam aparecer à base de gritos, chegando a interromper falas e reflexões do artista. Em certo momento, depois de ouvir um “eu te amo” de uma fã, e responder com um “eu também amo todos vocês”, Gil começou a fazer considerações sobre o amor em suas várias formas, “do carnal ao filial”, mas foi logo cortado pelo berro de um inconveniente.

Houve espaço, também, para homenagens a Jackson do Pandeiro, com o samba-rock Chiclete com banana (Gordurinha), gravado no Bandadois, um dos CDs mais recente; e a João Gilberto, do repertório de quem extraiu Aos pés da cruz (Marino Pinto e José Gonçalves). O roteiro, porém, Gil construiu com músicas de sua extensa obra, indo desde Eu vim da Bahia, do LP Louvação (1967), até Minha princesa, tema de abertura da novela Cordel encantado.

Mas o que levou os admiradores a viajar no tempo foram clássicos que habitam a memória afetiva de muita gente. Como não se sensibilizar ao ouvir a ancestral Procissão? Também fizeram parte da lista (sem obedecer ordem cronológica) Não chore mais (versão politizada de Woman no cry, de Bob Marley); A paz, criada com o parceiro João Donato; Se eu quiser falar com Deus e Expresso 2222 — marcantes na trajetória de Gil.

Refazenda, ele dedicou a Brasília, provavelmente recordando-se de Guariroba, o sítio que teve com amigos no entorno da capital, na década de 1970. O bis levou os mais entusiasmados a ir para a frente do palco e dançar. Fez sentido: Gil escolheu para se despedir os afoxés Filhos de Ghandi e Toda menina baiana, e deixou a cena ovacionado.



in Correio Braziliense, 12.01.2012
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