Gilberto Gil celebra 70 anos em concerto com ‘camerata pop’ e orquestra

Luiz Fernando Vianna

RIO - A principal comemoração dos 70 anos de Gilberto Gil será com um show em que ele se apresenta sentado, toca violão acústico, é acompanhado por quatro músicos com instrumentos também desplugados e até por orquestra — como acontecerá em 28 de maio, no Teatro Municipal, quando "Concerto de cordas e máquina de ritmo", com participação da Orquestra Petrobras Sinfônica, será gravado por Andrucha Waddington para lançamento em DVD no fim do ano pela Biscoito Fino.

Em suma, é um Gil diferente do que nos acostumamos a ver, seja no palco com sua guitarra e sua agitação corporal e vocal, seja pregando em atos e entrevistas a incorporação à cultura das novas tecnologias, a inevitabilidade do mundo digital. A nova postura não é decorrência da idade, pois o cantor garante que essa fase cool é provisória. Em breve, haverá mais máquina e menos concerto.

— Na metade do segundo semestre, vou desdobrar esse trabalho para poder usar nele mais máquina, fazer algo mais pancadão — diz ele, no intervalo de um ensaio, em seu estúdio, na Gávea. — Eu gosto dessa suavidade também, e o meu timbre atual, de voz mais velha, até pede isso, mas vai chegar o momento em que vou sentir falta e vou querer funkear.

No ano passado, Gil tinha feito apresentações no Brasil e no exterior com o filho Bem Gil (violão) e com Jaques Morelenbaum (violoncelo). Juntaram-se ao grupo agora Nicolas Krassik (violino) e Gustavo de Dalva (percussão). É uma "formação improvável, exigente, difícil", segundo Gil, que a chama de "camerata pop", mesmo reconhecendo que não há muito de nitidamente pop nela:

— É difícil você admitir que está escutando alguma coisa que possa classificar como pop se não há baixo e bateria. E bateria é a máquina de ritmo. Caetano se queixava no passado: "A gente é obrigada a tocar com bateria, essa máquina." Hoje ele está apaziguado, até porque os MPCs chegaram e compactaram tudo numa caixinha. São milhões de possibilidades que você tem.

E Gil não costuma, desde o tropicalismo, desperdiçar essas possibilidades. Ficou muito impressionado com o show de Gal Costa, dirigido por Caetano, no qual Domenico Lancellotti usa o MPC não só para programar sons, mas o toca na hora, como se fosse um outro instrumento da banda — "subordinado à pulsação geral, e não o contrário", segundo Gil.

— Quem mantém uma certa curiosidade e se livra de um certo preconceito em relação às máquinas vai acabar experimentando, vai ter que trabalhar com elas — acredita.

Distância de Bethânia e Nana

A certeza de Gil provoca uma pergunta sobre sua amiga Maria Bethânia e sua ex-mulher Nana Caymmi, grandes cantoras que continuam distantes de efeitos eletrônicos.

— É o que eu disse: quem tem uma certa curiosidade e nenhum preconceito vai experimentar. Quem prefere não mexer nisso fica imune, não se contamina — afirma. — Eu gosto. Às vezes vejo Beyoncé, as coisas que ela faz, tudo programável, é tão interessante... E mesmo Stevie (Wonder), que tem seu computadorzinho. Para um tropicalista, então, é tentador. Eu, Gal e Caetano ficamos segurando esse outro lado até hoje.

As três músicas de "Concerto de cordas e máquina de ritmo" que não são de Gil passaram por adaptações para o projeto.

— "Saudade da Bahia", menos, porque já há samba de roda em Caymmi, já é Nordeste. Mas "Outra vez" (de Tom Jobim), que é bem bossa nova, ficou com uma levada de coco. Elas formam um par no show, com o samba geral correndo no meio das duas — diz ele, que também canta "Juazeiro", de Luiz Gonzaga. — Ficou mais ácida, acid rock, menos baião.

Da sua obra ele selecionou canções recentes como "La reinaissance africaine", "Não tenho medo da morte" e, claro, "Máquina de ritmo". E antigas como "Oriente", "Expresso 2222", "Eu vim da Bahia" e duas que ganharam novas orquestrações (de Morelenbaum) mais de 40 anos depois das clássicas de Rogério Duprat: "Domingo no parque" e "Panis et circensis". Na turnê europeia de junho e julho, Gil contará com orquestra no Barbican Theatre, em Londres, e em Montreux, na Suíça.

Já há uma inédita garantida, "Eu descobri", feita a pedido de Sérgio Dias para a formação atual dos Mutantes, e promessa de outras.

— Tenho expectativa de concluir, pelo menos, mais duas, talvez a tempo de entrar no DVD — conta.

Fumando um cigarro por dia e fazendo uma hora diária de exercícios "ióguicos, calistênicos", não de musculação, Gil diz lidar sem maiores tensões com os 70 anos que completa em 26 de junho:

— Nunca exercitei muito a acuidade da memória, porque adotei cedo a meditação, o abandono da mente ao seu próprio fluxo. Então, não me assustam muito os Alzheimers. De certa forma, é um pouco isso que venho fazendo com a minha condição psíquica, no sentido de abandonar as visões totalizantes do mundo, deixar que a mente vá por onde quer ir. E na sexualidade vai atenuando mesmo. Não vou ficar agora preocupado com potência sexual. É o que eu chamo de conformidade conforme a idade. Venho me preparando para viver assim.




in O Globo, 04.04.2012
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