Gil reúne filhos em gravação de DVD "Bandadois"

Claudio Leal e Thais Bilenky

O preto no branco, luzes no palco giratório. Gilberto Gil toca o violão, de costas para a plateia, cercado por câmeras, trilhos e gruas. O balé mecânico da segunda noite de gravação do DVD "BANDADOIS", no Teatro do Bradesco, em São Paulo. Sentado num banquinho, o compositor usa um terno escuro, camisa azul marinho, mas predomina em cena o contraste branco e preto, na filmagem dirigida pelo cineasta Andrucha Waddington.

- É a gravação do meu DVD, portanto podem se manifestar à vontade, uh, oh!... Vai ser um show muito suave...

Antes do início do espetáculo, o produtor musical Liminha simplificou para o músico baiano como seria o trabalho acústico: "É só voltar ao começo". "Começamos com o violão, no aconchego dos nossos lares", desdobra Gilberto Gil. A ser lançado no final de novembro, com distribuição da Warner Music, o DVD reunirá standards e inéditas.

Na plateia, o compositor e escritor Arnaldo Antunes, o jogador Raí, o publicitário Washington Olivetto, os cineastas Bruno Barreto e Fernando Meirelles. Nas coxias, zanza Flora, a esposa e produtora. Aquecido pelos refletores, Gil brinca:

- Na Bahia, nos auditórios e nas praças, o artista costuma perguntar: "Cadê você?". Aí respondem: "Ói eu aqui!" - diz, prevendo os gritos deslocados e tresloucados de fãs, sem excluir justamente o "Gil, tô aqui", dito por uma loira da segunda fileira.

Depois de interpretar "Flora", Gil inicia um encontro artístico-familiar, que amplia o tom de intimidade pretendido pelo show e, noutros planos, revive um diálogo musical iniciado com o filho Pedro Gil, morto precocemente aos 19 anos, em 1990, num acidente de carro.

- Ao longo dessa vida, há 67 anos vivendo-a, os amores, as companheiras, os filhos, oito deles, sete vivos, alguns no mesmo ofício que eu... Preta, Nara mais velha, Pedro também, esse que se foi... Agora Bem Gil com vocês... Venha Bem...

Juntos, violão desafiando violão, os dois tocam "Super-homem". Adiante, o caçula José Gil se incorporaria na hora de "Refavela", na condição de "banda três". "Banda dois" é o mais velho, Bem. "Banda um", claro, Gil, como se apresentou, numa pose à Januário de Luiz Gonzaga. Voz suave, mais repousada, o pai segue a cantar com os meninos e para as meninas.

- Dos oito filhos, cinco mulheres, Nara se casou, Preta, Isabel, há quatro semanas atrás casou a Maria. Enfim, o sonho dos pais antigos, de casar todas as filhas! - sorri. Maria me pediu: "Pai, faz uma música pro meu casamento". Eu fiz.

"Se forem hábeis e sábios e sãos/ Saberão ser amáveis e tempo terão/ Para fazer da vida a dois, dois chumaços de algodão"...

Da plateia, um homem emenda:
- Gil, faz uma pra mim!
- Me mande a data de seu casamento. Farei.

Há tempo para uma homenagem a Dorival Caymmi. Antes de interpretar "Saudade da Bahia", com Bem, o ex-ministro explica:

- A fonte, a grande fonte em que a gente vai beber a música tem muitas vertentes. E uma das primeiras fontes a brotar e a correr em meu coração foi Dorival Caymmi.

Gil procura animar o público paulista. O palco é largo, o banquinho e o violão estão afastados da plateia. Para cantar "Chiclete com banana", de Jackson do Pandeiro, o músico pede à voz presente participação.

"Pa para papá... Pa para papá...". Soa tímido. "Pa para papá... Pa para papá...". Melhor. "Pa para pa... Quero ver a grande confusão!".

Em tom carinhoso, Gil começa a resgatar...: "Em 1965, todos nós loucos éramos por ela", lembra. Elis Regina dava bola para um, dava bola para outro, para os veteranos e depois para mais jovens, segue Gil. "Fiz uma música que nunca gravei, ela gravou". "Resolvi cantá-la, aqui, hoje, e decidi chamar sua filha, Maria Rita". "Amor até o fim":

"Amor não tem que se acabar
Eu quero e sei que vou ficar
Até o fim eu vou te amar
Até que a vida em mim resolva se apagar"

No repertório de BANDADOIS virão ainda "Lamento sertanejo", "África", "Raça humana". Entre uma e outra, Gil consulta Liminha sobre a afinação dos instrumentos. Ao público, ele explica:

- O violão tem cordas de nailon, o calor vai esticando as cordas.

A espectadora Cecília Dale, inquieta, da cadeira grita:
- Gil, é melhor ser ministro ou cantor?

Gil responde:

- O trabalho de ministro foi uma dessas coisas que a gente faz. Foi, é um momento histórico a chegada do presidente Lula. Simboliza um momento de grandes transformações. Se ele achava que eu deveria contribuir com esse momento...

Liminha dá uns toques, pede para banda um, banda dois e banda três regravarem "Refavela". "Flora" e "Nightingale" (parceria com Jorge Mautner) também mereceram segunda chance. O público está se soltando, e o show quase no fim. Fazem um pedido óbvio: "Esperando na janela".

- Gil toca "A Janela"! - interrupções constantes, sem efeito. Quando pedem "Se eu quiser falar com Deus", o compositor cede. Sozinho no palco.

- Iluminaaaadoooo! - berra-se das cadeiras.

Suficiente para a filosofia:

- A iluminação é do mundo. A iluminação vem da matéria. Todos os seres humanos participam dela. Iluminados todos nós somos.

O show se encerra com a última gravação de "Flora". De saída, alguém lhe pergunta:

- Gil, sua voz tá boa?
- Vocês que têm que dizer...
O julgamento vem de um anônimo:
- Estava ótima, Gil.



in Terra, 30.09.2009
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