Velho e bom Gil faz tudo novo, de novo

Lauro Lisboa Garcia

Gilberto Gil revitaliza clássicos e conecta o presente ao passado, com o projeto acústico “Banda Dois”; DVD, gravado ao vivo em São Paulo, tem direção de Andrucha Waddington

Gilberto Gil é daqueles artistas de tamanha grandeza, capaz de segurar um show sozinho ao violão até num estádio. Melhor ainda num ambiente confortável e com ótima acústica, como o ainda não oficialmente inaugurado Teatro Bradesco. Foi ali, acompanhado de seu instrumento primeiro, que Gil realizou, na terça-feira passada, a gravação de mais um projeto acústico, “Banda Dois”, só para convidados. O show vai sair em CD e DVD, dirigido por Andrucha Waddington, pelo selo Geléia Geral e distribuição da WEA.

O título remete a “Um Banda Um”, canção que deu título a um de seus álbuns dos anos 1980 e que ele rememorou. Este foi um dos raros momentos fracos de um show extasiante. Gil desencavou outros hits e temas clássicos de seu vasto repertório que não cantava havia muitos anos. Entre eles, a divertida “Rouxinol” (parceria com Jorge Mautner), “Lamento Sertanejo” (Gil/Dominguinhos), “A Raça Humana”, “Metáfora”, “Refazenda”, “Super-Homem - A Canção” e “Esotérico”.

O roteiro de 23 canções inclui três inéditas - “Das Duas Uma”, “Quatro Coisas” e a sensacional “Pronto pra Preto” - e reinterpretações de duas do recente álbum “Banda Larga Cordel” (“La Renaissance Africaine” e “Máquina de Ritmo”). Inédito ou antigo, sozinho ou na companhia dos filhos Bem Gil e José, tudo nesse Gil ressurge tinindo de novo.

“Tempo Rei”, em versão superior à original de 1984, se configurou como a experiência mais radical de reinterpretação. Além da letra, só sobrou praticamente a base melódica. Gil mudou o andamento e o ritmo, criou harmonias que tornaram a canção ainda mais bela. “Expresso 2222”, por sua vez, decolou com mais velocidade, com Bem Gil no pandeiro.

Talvez nesses casos não, mas em outros ouvir a gravação no CD pode não ter tanto impacto, já que grande parte da graça de reouvir canções tão conhecidas está em acompanhar os movimentos de suas mãos ao violão. Gil percorre caminhos surpreendentes, de harmonias sofisticadas, que lembram o processo paciente de reelaboração de João Gilberto, em favor do essencial. E o simples vira gigante. Em boa parte do show, a companhia do violão-solo de Bem Gil, talento que melhor se evidencia agora, dá mais corpo aos arranjos, sem perder a suavidade.

No início da apresentação, Gil comentou que pouco antes tinha perguntado ao produtor Liminha qual o segredo de um show acústico simplificado. “É só voltar ao começo.” E Gil voltou mais para trás ainda, prestando homenagens a duas fontes das muitas vertentes de sua música: Dorival Caymmi (“Saudade da Bahia”) e Jackson do Pandeiro (“Chiclete com Banana”).

Dentro da cápsula do tempo - tema, aliás, presente em algumas letras -, Gil exaltou a relação de 30 anos com Flora, cantando canções dedicadas a ela, como a que leva seu nome e a bela “A Linha e o Linho”, em interpretação fluida, límpida. “Das Duas Uma” é uma valsa que ele fez para celebrar o casamento da filha Maria, a pedido dela. Por falar em relações familiares, “Amor Até o Fim”, gravada por Elis Regina, contou com a voz de Maria Rita, que fez tudo direitinho, igual à mãe.

No fim, o baixo elétrico de José Gil juntou-se a Bem e ao pai em “Refavela” e “Baba Alapalá” (ambas do mesmo álbum de 1977). O pulso de sangue africano reverbera nas recentes “La Renaissance Africaine” e “Pronto pra Preto”, em que o ideal revelado no coração de quem sonhava com a miscigenação racial em “Refavela”, enfim se realiza com a comunhão entre as raças, em grande kizomba de batuque puro de samba duro, contagiante.



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