Política, raça e religião no Brasil, segundo Caetano e Gil

Os músicos Caetano Veloso e Gilberto Gil, que lideraram nos anos 60 um movimento libertário que enfrentou a ditadura militar brasileira (1964-1985), esperam que um dia o Brasil legalize a maconha e, talvez, o aborto.

Em entrevista à AFP antes de uma turnê pela Europa juntos, Caetano e Gil falaram longamente sobre religião e política no Brasil, um país que consideram mais racista hoje do que no passado recente, e onde asseguram que o ciclo de mais de 12 anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT), que ambos apoiaram até nas últimas eleições, "esgotou-se".

Nas últimas eleições, em outubro, os dois votaram a favor da ambientalista Marina Silva no primeiro turno e na presidente Dilma Rousseff no segundo.

AFP: Como veem a situação política atual?

Caetano Veloso: A criação do PT mudou a história do Brasil, e isso não tem volta. O PT é vitorioso na História. Agora o ciclo parece que se esgotou.

Gilberto Gil: O PT tenderá a um ajuste, a uma adequação, um lugar de confluência. Não há uma ideologia forte hoje em dia, há fragmentos de todas elas.

AFP: Há uma onda de conservadorismo que está crescendo no Brasil?

Caetano Veloso: Acompanhamos isso, às vezes, com amargura, às vezes, com paciência, desesperança (...) As primeiras manifestações das ruas foram uma mistura de atitudes libertárias e reacionárias, eram descontroladas. Agora o que há de mais conservador vem de áreas oficiais, do Congresso Nacional. Mas estamos vacinados, já enfrentamos muitos refluxos conservadores.

Gilberto Gil: Algo que atenua um pouco a tristeza é que isso não é só no Brasil, tenho a impressão que o mundo está assim. É a sociedade humana.

AFP: Acreditam ser possível a legalização da maconha e do aborto um dia no Brasil?

Gilberto Gil: Acredito sim! Quanto tempo mais vão insistir nesta marginalidade, em ficar à margem de uma tendência natural?

Caetano Veloso: Eu acho que a maconha é mais fácil. O aborto é mais difícil. O casamento gay é mais fácil do que o aborto. Sou favorável à legalização, mas compreendo os sentimentos de insegurança daqueles que o sentem como uma ameaça ao princípio de inviabilidade da vida.

Gilberto Gil: Tem uma canção minha (n.r: 'Não tenho medo da vida') que me causou dúvidas na hora de escrevê-la. Diz assim: "É que a vida atou-se a mim desde o dia em que eu nasci". E me peguei pensando, será que foi antes? (risos) Mas acabei deixando assim e isso me ajudou a acreditar que (o começo da vida) é só depois de que se nasce.

AFP: O Brasil, com mais da metade de sua população negra ou mulata, é menos racista hoje do que nos anos 70, 80?

Cetano Veloso: Talvez um pouco mais racista, eu acho (...) Mas o Brasil não era nada 'racialista'. Lembro-me que, durante o Carnaval, nos anos 70, eu ia, desfrutava, havia multidões. Jamais me perguntava se havia mais ou menos negros. Nem sequer o pensávamos (...) e hoje minha cabeça começa a fazer estatística, ali tem negros, lá não tem negros. Com a influência americana dos anos 70, para bem ou para o mal, a questão política e racial foi 'racializada'. Hoje há mais consciência da questão racial, o que aumenta o racismo, mas também enfrenta o racismo.

AFP: Se Gilberto fosse branco e Caetano fosse negro, algo mudaria?

Caetano Veloso: Talvez, não sei. Até escrevi um livro sobre minha experiência no Tropicalismo e coloquei assim: Gil é um mulato suficientemente escuro para ser chamado de negro até na Bahia; eu sou um mulato suficientemente claro para ser chamado de branco até em São Paulo. Mas os seus olhos são mais claros do que os meus.

Gilberto Gil: A tendência no Brasil é para uma grande nação mestiça.

AFP: O crescimento dos evangélicos os preocupa? Como sentem a religião?

Cetano Veloso: Sou até um pouquinho antirreligioso (...), mas a vida humana inclui a necessidade de religião. O crescimento dos evangélicos no Brasil eu considero até mais positivo do que negativo (...). Com nossa formação católica, nos acostumamos a acreditar que prosperar é ruim, e os evangélicos nos ensinam que não é assim, isso é muito importante para o Brasil. O catolicismo ficou cansado. Você vai à missa e escuta o padre falar e a imaginação não tem energia, a linguagem não tem energia, parece que há um esgotamento da energia histórica do catolicismo no Brasil. E quando você vai a uma igreja evangélica - que frequento de vez em quando para ver, porque há pessoas muito próximas a mim que aderiram - e vejo a energia com que o povo fala e com a qual o que dizem é recebido.

AFP: Você se interessa pela religião sem acreditar, é agnóstico?

Caetano Veloso: Eu sou. Sou agnóstico. Já me quis ateu quase combativo, mas quis ser mais pragmático.

Gilberto Gil: Eu fiz um percurso inverso. Depois de não precisar dela por muito tempo na juventude, precisei depois de um tempo e depois achei que já não precisava.



in Terra, 16.06.2015
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