Aniversário entre dias de santos

Na entrevista a seguir, concedida por telefone desde a sede de sua produtora Gegê, no Rio de Janeiro, Gilberto Gil comenta algumas faixas de Fé na Festa e fala da importância e da expansão pelo país da música nordestina e define: "Luiz Gonzaga é o primeiro artista pop do Brasil com um power trio".

Diário Catarinense - Fale um pouco de sua ligação com os ritmos nordestinos.

Gilberto Gil - Meu primeiro ídolo foi Luiz Gonzaga, meu primeiro instrumento foi o acordeom. Meu primeiro sucesso, depois de Aquele Abraço (1969), foi o xote Eu Só Quero um Xodó (parceria de 1973 de Dominguinhos e Anastácia).

Aqui e ali na minha carreira, sempre surge a presença da música nordestina. O meu disco de volta do exílio se chama Expresso 2222 (1972), que é um xaxado.

DC - E o Luiz Gonzaga foi o maior divulgador dessa música no país, certo?

Gil - Ele é o primeiro artista pop do Brasil com um power trio de sanfona, zabumba e triângulo enchendo as praças do país. Lembro de ver, aos 10 anos, o Luiz Gonzaga na Praça da Sé, em Salvador, apinhada de gente, 20 ou 30 mil pessoas, ele em cima do palco com aquele chapéu de cangaceiro. Foi avassalador! Se hoje sou músico, é por causa dele.

DC - Você também recupera em Fé na Festa as letras de duplo sentido desses ritmos.

Gil - Isso está presente em duas vertentes importantes da música brasileira: as marchinhas de Carnaval e o xote nordestino. Desde o Xote das Meninas, passando por O Cheiro da Carolina e por Severina Xique-Xique, do refrão "Ele tá de olho é na butique dela". Essa música O Livre-Atirador e a Pegadora é uma continuadora dessa velha tradição.

DC - Em Vinte e Seis, você canta seu aniversário como mais uma das festas juninas.

Gil - Na minha infância, minha festa de aniversário ficava ali, dois dias depois de São João e três antes de São Pedro. Como Santo Antônio é dia 13, as pessoas no Norte e no Nordeste celebram rezando uma trezena. Depois que eu nasci, minha mãe, em vez de rezar do dia 1º ao dia 13, passou a rezar do 13 ao 26, terminando no meu aniversário. Vinte e Seis foi a última música do disco a ser composta, escrevi quando soube que iria cantar no dia do meu aniversário em Jequié, terra do Waly Salomão (poeta baiano, morto em 2003). Decidi, então, cantar um parabéns para mim.



in Diário Catarinense / Online, 16.06.2010
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