Refazenda cibernética

Mylene Neno

Gil lança Eletracústico, primeiros CD e DVD já como ministro da Cultura, e anuncia novo site com músicas digitalizadas

"Sou um político que não sou político", diz o ministro Gilberto Gil, embaixador informal do Brasil no exterior

De volta à sua porção artista, após quase três anos sem gravar, Gilberto Gil lança Eletracústico (CD e DVD gravados ao vivo em setembro no Rio) e apresenta o site www.gilbertogil.com.br totalmente repaginado. "A maior parte do meu tempo dedico ao ministério, e residualmente à música. Não tenho tempo para compor", admite, ao explicar o fato de Eletracústico ter apenas releituras de grandes sucessos seus como Aquele abraço e Se eu quiser falar com Deus e de outros artistas como Imagine (John Lennon) e Three little birds (Bob Marley).

Nessa entrevista, ministro e músico dão lugar ao Gil "semeador", que defende Software Livre, Creative Commons, entre outras idéias. Como já diria ele em Refavela, "A refavela/Revela o sonho/De minha alma, meu coração/Minha gente/Minha semente/Preta Maria, Zé, João".

A revista Wired desse mês traz um artigo sobre o Creative Commons (CC), além de um CD com músicas de vários artistas já dentro desse sistema, incluindo Oslodum, de sua autoria. Você também acaba de liberar outra composição sua, Máquina de Ritmo, através do CC, afirmando que quer "fazer o mundo digital cair no samba". O que quer dizer isso?

O CC busca restituir a gestão, o exercício do seu direito autoral, que hoje é intermediado pelas editoras. Pode ser entendido como uma licença criativa, na qual o autor pode, através da Internet, autorizar o uso de sua obra. Com isso, o artista tem a possibilidade de flexibilizar esses direitos, essas permissões, da forma que quiser. Pode liberar o uso de sua obra para a criação de outros produtos, em outras linguagens. Ao contrário do que muitos afirmam, o CC - em vez de enfraquecer a posição do autor - fortalece seus direitos. Nos Estados Unidos, o setor da indústria da música está formando um grupo para criar formas impeditivas aos sharings (compartilhamentos) de música pela Internet. É a guerra da velha contra a nova indústria.

E quais os reflexos desse movimento aqui no Brasil?

Ainda não há tantos computadores assim no Brasil para a indústria começar a se preocupar. Aqui, os problemas de pirataria são mais ligados a suportes físicos (a mídia CD) e não a eletrônicos (download e compartilhamento de músicas).

Como o Gilberto Gil autor e ministro da Cultura encara a pirataria e o compartilhamento de (suas) obras a partir da Internet?

Declaro a minha rendição ao trator avassalador da tecnologia. O que é positivo e negativo, já que você ganha e perde. Tenho uma dupla visão sobre isso. Como autor, agente industrial que vende discos baseados no Copyright, encaro como abuso esse uso indiscriminado e ilícito das obras. Agora, quanto à marcha inexorável da tecnologia que faz a História caminhar, acredito que as gerações vão usando o repertório das outras para criar outras coisas. Não tem jeito. Por isso é que é preciso o Software Livre, o Creative Commons, essas intermediações, pontes entre um paradigma e outro, que propõe um mix de tudo isso que nós vemos.

Em seu novo site a sua discografia está digitalizada, mas não há ainda como baixar as músicas...

O site é um grande banco de dados para mim e para o público, que agora pode ouvir integralmente todas as minhas músicas, divididas por cada álbum, além de visualizar as letras. Mais tarde quero criar uma ferramenta de compartilhamento e uso interativo de algumas composições minhas. Não quero ser agente de freio da caminhada da humanidade.

Como você avalia sua atuação no Ministério da Cultura? Há tempo de colocar todas as suas idéias em prática?

Já sabia da lentidão do sistema público e isso não me incomoda. Me vejo muito como semeador, que não tem tempo de ver suas idéias germinando, e segue semeando. Estou falando de Software Livre, Creative Commons, Instituto Nacional de Museus, Loteria da Cultura, Jogos BR...



in O Dia, 08.12.2004
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