Gilberto Gil traça biografia futurista em CD gravado no Teatro Municipal

Leonardo Lichote

RIO - O título “Concerto de cordas & máquinas de ritmo” (Biscoito Fino), anuncia um diálogo intenso — que incorporaria o choque e a construção de novas soluções para ele — entre esses dois universos sonoros: cordas orgânicas e máquinas mecânicas. Gravado ao vivo no Teatro Municipal com a Orquestra Petrobras Sinfônica, o CD de Gilberto Gil, porém, não concretiza a expectativa. E não parece nem tentar. Por que então a promessa?

A resposta vem com o desenrolar das 15 canções. Se não realiza o encontro sonoro entre as dimensões orgânica e digital, ele o faz mais profundamente. O repertório é movido pelo diálogo entre o humano e o tecnológico — o medo da morte (“Não tenho medo da morte”) e o renascimento como metal (“Futurível”), surdo e MPC invertendo e reinvertendo papéis com a passagem do tempo (“Máquina de ritmo”).

Gil incorpora, portanto, o futuro num show biográfico, passadístico (cordas e máquinas, enfim). “Máquina de ritmo”, “Futurível”, a inédita “Eu descobri”, “Não tenho medo da morte”... Todas projetam realidades que sobreviverão a Gil — que sobrevive nas canções. “Estrela”, “Quanta” e “La renaissance africaine” se lançam sobre o que passou e o que virá. E há evocações dos primórdios, como “Eu vim da Bahia”, “Panis et circenses” e “Domingo no parque”, as referências a Gonzaga (“Juazeiro”) e Tom (“Outra vez”), o bolero da infância (“Tres palabras”). Mesmo essas ligam as duas pontas do tempo: “Eu vim da Bahia/ Mas algum dia eu volto pra lá".

O que a OPS (sob regência de Carlos Prazeres e Jaques Morelenbaum, que assina as orquestrações) e a banda fazem é dar cores a isso. Muitas vezes apenas como ornamento de luxo (”Andar com fé”, “Panis et circenses”), outras indo além (“Domingo no parque”, que desradicaliza Duprat, e “Juazeiro”, a mais bem acabada em sua proposta de fusão). Mas, paradoxalmente, é na pulsação seca, crua, solitária, sem cordas ou máquinas, de “Não tenho medo da morte” que o enunciado do CD se realiza de forma mais inteira.



in O Globo, 02.10.2012
2583 registros:  |< < 118 119 120 121 122 123 124 125 > >| 
 
2009 © Gege Produções Artísticas Refazenda fez