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Com três shows em SP, Gil fala do mentor João Gilberto; leia entrevista

Thales de Menezes

Gilberto Gil se apresenta no próximo fim de semana em São Paulo, inaugurando o Theatro Net, novo local de shows na cidade. Suas noites, na maior parte do tempo, serão dedicadas à obra de João Gilberto.

Aos 72, Gil lança "Gilbertos Samba", disco com repertório de seu mentor. "São canções gravadas por João Gilberto, criadas ou celebrizadas por ele, todas ligadas ao que se convencionou chamar bossa nova. Todas ligadas ao ritmo do samba e ao formato da bossa nova."

Em seu escritório, no Rio, o músico falou à Folha sobre João Gilberto, a ausência de novas composições e as eleições. E emitiu uma declaração um tanto constrangida sobre o papel da plateia em seus shows.

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Folha - Você ainda fica nervoso antes de entrar no palco?

Gilberto Gil - Tenho algum nervosismo. Ainda fico com as mãos frias. Sempre, desde os primeiros momentos em que tive de subir ao palco. Nervosismo, certa ansiedade, expectativa, insegurança. Tudo permanece residualmente até hoje.

Qual o repertório para essa temporada paulistana?

Todas as canções do disco e mais algumas. Coisas que se aproximam conceitualmente do repertório do disco. Sambas que ocorreram aqui e ali no meu trabalho de interpretação e de composição.

Sucessos antigos também?

Quando não estou lançando um disco, faço em cima de uns 20 ou 30 sucessos que tiveram presença forte junto ao público, já sedimentadas como canções apreciadas.

Até hoje eu canto "Palco", "Andar com Fé", "Procissão". "Só Quero um Xodó", "Domingo no Parque".

Eu sinto que essas músicas estão impressas na memória de todo mundo. Elas têm algo de talismã, impregnadas de um certo fetiche.

Há um público jovem que acompanha você e Caetano Veloso, mas não compreende a admiração de vocês por João Gilberto. Você consegue teorizar sobre isso?

Tem coisas que vêm de vários planos da subjetividade e coisas mais práticas. Eu começaria dizendo que eu, Caetano e João somos baianos. E Caymmi. Eu incluiria Caymmi nessa não compreensão dos mais jovens. Começa por aí. A afinidade, a época.

O que João Gilberto fez nos representou como proposta de compreensão da canção, do entendimento da configuração de uma expressividade brasileira, tropical. De expressividade cordial, do homem manso, suave, tranquilo, brasileiro.

Tudo isso tem na sonoridade do João Gilberto e acho que eu e Caetano tivemos sempre muito apreço em nos apropriar disso, incorporar isso ao nosso modo de emitir música, nosso discurso, nosso próprio modo de compreender a expressividade musical brasileira. Adotamos isso.

Daí vem a admiração extra, que é além do público. Eu, Caetano, o Chico [Buarque] bastante, somos artistas da música. Isso estabelece cumplicidade, um campo de aderência maior daqueles que podem se dizer discípulos.

João ensina esse lado de se expressar sem ser superdotado de uma série de dotes convencionais do campo da expressão musical, sem ter talentos especialmente brilhantes. João nos facilitou a vida!

Você tem um longo histórico de parcerias no palco. Existe algum artista com que você gostaria de ter feito um show, mas por algum motivo isso não aconteceu?

Olha só, nunca cantei num palco com João Gilberto, já gravamos juntos em disco. Eu teria curiosidade de ver como ele iria propor a abordagem de uma canção, de um show. Esse processo seria bom, mais do que o resultado. O resultado nunca é importante.

Mas há shows que dão certo e outros não tanto, não é?

Não fico pensando no resultado que o show terá junto ao público. O público... [Gil hesita, pela primeira vez na conversa] Sem nenhuma falta de respeito, entenda, sem nenhum demérito, sem nenhum... Enfim, sem nada distorcido do que possa significar o que eu vou dizer, o público é secundário. [gargalhadas] Pense: ali, no show, o público para você não existe. Você faz aquilo para você.

Você vai compondo as canções e quando acumula algumas pensa em fazer um disco?

Acabou isso, essa fase pode ser até que volte. Não tem mais a acumulação, de fazer uma música hoje, daqui a cinco dias fazer outra e depois outra. Não tem acontecido isso ultimamente. Se você me perguntar se hoje eu tenho alguma música guardada ali no cesto, na prateleira da dispensa, não tenho.

A tensão vivida no Brasil no último ano, principalmente as manifestações ocorridas em junho do ano passado, isso não instiga você a compor?

Tenho a impressão de que se fosse 15 ou 20 anos atrás eu já teria feito alguma coisa. Pelo menos tentado fazer duas ou três canções que dessem conta dessa inquietação interna minha em relação à inquietação do mundo.

Esse sempre foi o papel de artistas como eu. Agora eu não tenho mais essa pressa toda. Por que uma leitura minha dos fatos recentes terá importância? Sempre foi o papel de acompanhadores da fenomenologia social analisar como se desdobra essa fenomenologia. Mas acho prematuro.

Você vai apoiar candidatos na próxima eleição?

Tenho a vontade de exercer a faculdade da não declaração do voto. Na medida do possível, porque tem um voto que eu manifestei há uns meses e não posso mais esconder. É o voto na Marina Silva. Como ela é vice numa chapa, votar nela implica o voto no Eduardo Campos. Esse voto está declarado. Mais do que isso, não quero. Já me manifestei muito. Desta feita não quero fazê-lo.

GILBERTO GIL

QUANDO sexta (18) e sábado (19), às 21h; domingo (20), às 20h

ONDE Theato Net, Shopping Vila Olímpia, r. Olimpíadas, 360; tel. (11) 3439-9312

QUANTO de R$ 50 a R$ 250, no site ingressorapido.com.br



in Folha de São Paulo, 16.07.2014
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