Caetano e Gil: Dois amigos, um século de virtude

Pedro Miranda

Será difícil encontrar, no seio do respectivo cosmos musical, figuras de maior grandiosidade que as de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Unanimemente encarados como mestres da MPB e com um legado que precede os próprios nomes que assinam em suas canções. O facto de estarem ambos há mais de um ano numa tour mundial, que totalizou esta semana não menos de cinco concertos em Portugal, deve ser encarado mais como dádiva que outra coisa, a verificar pelo esplendor do puro amor pela música que partilharam os músicos no Coliseu dos Recreios.

Se apenas duas guitarras clássicas em palco denunciavam a falta de grande diversidade sónica, os belíssimos arranjos e fraseados por elas emitidas reduziam qualquer acompanhamento a supérfluo.

Sem que houvesse grandes motivos para nisso reparar, a mera disposição do palco possuía algo de, inegavelmente, místico: no centro, dois microfones, duas cadeiras e uma mesa entre elas, onde repousavam imaculadas duas taças de vinho – tinto para Caetano, branco para Gil; ao fundo, erguiam-se as bandeiras dos países visitados pela digressão, complementadas ainda por aquelas dos diferentes estados que compõem o Brasil. Não era o complemento mais simples alguma vez visto, mas ainda assim surgia munido de um minimalismo que adornava perfeitamente a simultânea singeleza e magnificência do espectáculo.

Se apenas duas guitarras clássicas em palco denunciavam a falta de grande diversidade sónica, os belíssimos arranjos e fraseados por elas emitidas reduziam qualquer acompanhamento a supérfluo. Tal como o faziam as suas vozes, notavelmente atingidas pelos 74 anos de cada um, mas talvez por isso mesmo munidas da doce fragilidade que se espera de canções de amor como as que trouxeram Gil e Caetano a Lisboa.

E depois, havia as canções em si.

O enquadramento, que os dispunha tão descontraidamente como se estivessem no conforto de seus lares partilhando capítulos de uma história já centenária, encontrava as condições perfeitas para a performance dos melhores temas de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Nesta disposição, despida e intimista, tão eficientemente expunham as lamentações de “Coração Vagabundo” ou “Drão”, como montavam as hipotéticas batidas do “sambinha bom”, que lançavam Caetano em danças aplaudidas sem fim – “Filhos de Gandhi” e “Toda Menina Baiana” foram valorosos exemplos.

Entre perto de 30 canções (nas quais, para além do samba e da MPB, traziam cheiros de bossa nova, blues, rock e reggae, e letras em português, inglês e espanhol) e perante uma audiência que claramente se havia rendido ao seu charme, Caetano e Gil ainda se prestavam a agradecer um ao outro. Era, afinal, mais ainda que um espectáculo, uma ode a cinquenta anos de uma amizade da qual apenas uma pequena porção transpareceria a quem está de fora.

Por essa pequena parte, Lisboa agradeceu sem mãos a medir, deixando a Caetano e Gil a eterna certeza de terem, no extremo europeu mais próximo da sua nativa Bahia, uma mais que simbólica casa fora de casa.



in Arte Sonora, 01.05.2016
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