Caetano e Gil numa cumplicidade que faz sentido

MANUEL CARVALHO

O primeiro dos quatro momentos de celebração de “um século de música” de Caetano Veloso e Gilberto Gil em Portugal fez-se no Porto com um concerto intenso e luminoso. Entre o passado e o presente há uma rede de afectos que aumenta o brilho de grandes canções.

É certo e seguro que a maioria das pessoas que esgotaram o Coliseu do Porto na noite de domingo já ouviu dezenas ou centenas de vezes as canções que entraram no alinhamento do concerto de Caetano Veloso e Gilberto Gil. É muito provável também que uma boa parte já tenha visto e ouvido os dois cantores ao vivo uma ou muitas vezes. Ainda assim, é possível ir a um concerto feito de canções que chegam a ter mais de meio século de vida e sair de lá com a sensação de que aconteceu algo de novo. Talvez porque o desejo do reencontro exija o tempero da novidade. Seguramente porque há tanta emoção, genialidade e talento em Caetano e em Gil que num concerto cheio de simbolismo como o de domingo fica mais fácil transformar o conhecimento em redescoberta. Os sorrisos rasgados da plateia no final não deixavam margem para dúvidas. Os aplausos entusiásticos ao longo da sessão ainda menos.

Caetano e Gil seguiram sem desvios o guião estabelecido há mais de um ano para a celebração de Dois Amigos, um Século de Música, a base do seu duplo CD ao vivo e das digressões que fizeram na Europa e no Brasil no ano passado e, já este ano, nos Estados Unidos e em Portugal. O concerto do Porto abriu a temporada nacional de quatro concertos (dois dos quais extra) que se esgotaram rapidamente – apesar dos preços. No alinhamento há invocações da Bahia, do samba, dos tempos do exílio em Inglaterra por força da ditadura militar, de amores sentidos, vividos ou perdidos. Há as mensagens de cariz mais político dos primórdios do movimento Tropicália, palavras ditas em inglês, espanhol ou italiano. E a ligar tantas canções separadas por décadas há o inabalável cimento da cumplicidade de dois músicos que conseguem interpretar a inspiração um do outro como se em causa estivesse uma simples extensão da sua própria forma de ver a música.

Quem conhece o poder das canções de Caetano e de Gil ao vivo e a sua extraordinária empatia com o público sabia que uma voz e um violão bastam para impor o silêncio numa sala, mesmo que seja uma sala onde cabem umas três mil pessoas – caso do Coliseu do Porto. Aos primeiros acordes de Back in Bahia essa garantia ficou afirmada. Mas o concerto fez-se a imagem e semelhança dos grandes concertos: em crescendo. A cada nova canção, o enlace de Caetano e de Gil com o público acentuava-se. Em É luxo só, o ritmo do samba agitou as cadeiras. Em É de manhã (a mais antiga das canções interpretadas, que remonta a 1963 e que foi imortalizada por Maria Bethânia numa gravação com Chico Buarque em 1975), a doçura nostálgica do choro antecipou um crescendo de emoções na plateia que explodiu com Sampa – antes, Camélias do Quilombo do Leblon, um tema criado no ano passado, serviu como prova do inesgotável nervo criativo dos dois baianos.

Depois de Sampa, a interpretação de Terra foi ponto de partida para viagens aos primórdios e ao presente da música de Caetano. Transa, gravado na fase final do exílio londrino, em 1972, fez-se ouvir com Nine out of ten. E, como não podia deixar de ser, Cê, de 2007, seguramente um dos grandes discos da carreira de Caetano Veloso, marcou presença com Odeio. A seguir, foi Gilberto Gil a abrir o seu livro de canções. Esotérico levou a audiência ao delírio, embora o momento sublime do assobio com que Gil pontua o final tenha sido devidamente sublinhado com um silêncio reverencial e interessado. Drão, outra das grandes canções de Gilberto Gil (do álbum Um Banda Um, de 1982), criou outro daqueles momentos de devoção – muito atentamente, lá se podia ouvir na plateia um balbucio dos versos com que o cantor nos conta uma história verdadeira de separação.

Juntos ou à vez, Gil e Caetano mostraram uma empatia que só os inúmeros cruzamentos das suas vidas conseguem justificar. No concerto, as canções de um e de outro deixam de o ser por inteiro para serem em grande parte património comum. Caetano mantém até hoje na sua voz a intensidade da juventude e se Gil envolve por vezes o seu timbre mais grave e mais rouco numa abordagem mais sensível e comovida, nem por isso se pode deixar de dizer que está numa forma notável. E, sim, mesmo que se um dia a sua voz fosse constrangida pelo que quer que fosse, seria sempre um prazer vê-lo tocar violão: é um guitarrista absolutamente extraordinário e, nesta fórmula acústica, esse talento transborda naturalmente.

Já na fase final do concerto, uma vez mais o envolvimento da audiência aumentou de intensidade com Desde que o samba é o samba e A luz de Tieta. Num segundo regresso ao palco, Caetano Veloso cedeu aos pedidos expressos da plateia e interpretou O leãozinho, um tema que não consta do registo ao vivo que deu origem ao álbum comemorativo de meio século de aventuras em comum. Perante uma audiência eufórica, o concerto nem acabou com uma canção de Caetano, nem com uma canção de Gil. A mensagem de despedida fez-se com Three little birds, de Bob Marley. Depois do que se viu e ouviu no Porto, o verso final da canção é um aviso certeiro para os que conseguiram entrada nos três concertos em falta na digressão portuguesa: “Don't worry about a thing/ 'Cause every little thing/ Gonna be all right!”



in Público Portugal, 25.04.2016
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