Gil e Caetano, ontem 27, no Coliseu de Lisboa

Caetano Veloso e Gilberto Gil regressaram aos palcos portugueses. Para mostrar um século de música de duas carreiras com mais de 50 anos

Quando a casa está cheia, há quem se sente pelos sofás e cadeirões, quem se encoste às janelas ou a estantes, quem pouse o copo junto de bibelôs e livros, quem acabe de pernas dobradas no chão, e ao centro da sala de estar os anfitriões, cada um na sua cadeira, cada um com a sua guitarra, e uma mesa entre os dois, um copo de tinto e outro de água. São amigos há muito, os dois – e todos os outros, tantos outros, os que encheram a casa são amigos que já os conhecem há mais ou menos tempo.

Esta quarta-feira à noite foi assim: Caetano Veloso e Gilberto Gil, os tais rapazes que são amigos há muito, desde os anos 1960, abriram a sua sala de estar, por duas noites instalada no Coliseu dos Recreios, em Lisboa (e no domingo e segunda estiveram no Porto), convidaram muitos que os acompanharam nas canções todas.

Não será novidade este encontro: já tinham estado os dois em Oeiras, em julho passado, no estádio do Parque dos Poetas (e, percebe-se agora, este é um concerto que pede uma sala de estar mais recatada), e em janeiro esta reunião dos Dois Amigos, Um Século de Música chegou em disco e DVD. Mas os amigos nunca se importam de ouvir as histórias de sempre. É assim a amizade.

É assim que, quando o som falha logo na terceira canção, quando Caetano Veloso interpreta Tropicália, os amigos cantam também num coro de quem conhece as músicas de trás para a frente. É por isso que Gilberto Gil canta sobre a “mulata quando dança” e Caetano, quase preto, quase branco, dança ainda sentado, e os amigos todos gostam de ver. E só a amizade ouve Gil a esforçar-se quando sussurra oye la confesión de mi secreto, da canção Tres Palabras, e dispensa sentidos aplausos de quem percebe que todos são frágeis – até Gilberto que se expõe na fragilidade de uma voz de 73 anos, para logo resgatar diferentes vocalidades em Drão e Não Tenho Medo da Morte ou em Toda a Menina Baiana. Caetano a seu lado, mais novo pouco mais de um mês, estende o braço, o foco é de Gil.

Num espetáculo onde quase tudo sai ensaiado sem parecer (“canta Lisboa”, “outra vez”), como se fosse espontâneo como tantos gestos nas amizades, também houve espaço para a “mais nova” canção composta pelos dois, depois de terem tocado De Manhã, a mais antiga composição de Caetano e Gil. Um “inédito composto depois de passarem por Portugal”, em 31 de julho de 2015, como explicou Veloso: As Camélias do Quilombo do Leblon é política feita com flores, como os cravos nas espingardas de abril.

Este quilombo era uma quinta situada naquele que é hoje o bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, que abrigava escravos fugitivos que tinham o apoio do movimento abolicionista e, no local, cultivavam-se flores, nomeadamente camélias, tidas como símbolo da luta contra a escravidão.

Enquadrados com bandeiras dos estados brasileiros (e de vários países), num cenário que rompe com o ascetismo das primeiras apresentações, um e outro cantam que “será sem fim o sofrer do povo do Brasil”. Entre os amigos, as opções políticas nem sempre fraturam, mesmo que Caetano e Gil prefiram o silêncio quando lá do alto do balcão há quem prefira grita “Dilma” quando cantam “odeio você” (de Odeio).

Lá mais para o fim, Caetano convida todos a cantarem. Afinal, “cantando eu mando a tristeza embora”. É por isso que, num segundo encore, os dois amigos se entregam a O Leãozinho e, como nas festas de amigos com guitarras à solta, Bob Marley surge na voz rouca de Gil em Three Little Birds. Os amigos foram deixando a sala de estar (que volta a abrir uma última vez em Lisboa esta quinta-feira). Every little thing gonna be all right…



in DIÁRIO DE NOTÍCIAS, DE LISBOA, 28.04.2016
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