Raízes e antenas em Gil

Sílvio Osias

Caetano Veloso diz que o tropicalismo é filho da lição de Pernambuco. Entenda-se por "licão de Pernambuco" a passagem de Gilberto Gil por Recife, um pouco antes do festival que, em 67, tornou-o nacionalmente conhecido com Domingo no Parque. No período que passou em Recife, Gil se apresentou pela primeira vez em João Pessoa, num show assistido por um público pequeno, no Teatro Santa Roza.

Voltou em março de 75. Já era um grande nome da MPB, tinha passado pelos festivais, o tropicalismo, a prisão, o exílio londrino e se preparava para gravar o disco Refazenda. Apesar de tudo isso, não lotava o Teatro Santa Roza em duas noites de show, ficava num hotel pequeno no centro da cidade e ia caminhando para o teatro, com o violão na mão. Foi assim que o vi pela primeira vez e nunca mais deixei de seguir seus passos.

Aos dezesseis anos, publicava meus primeiros textos na imprensa pessoense e, no dia da estréia, fui vê-lo na entrevista coletiva. No final da conversa, perguntei como era o conjunto (naquela época, ainda não usávamos "banda") que o acompanhava, e respondeu que era um trio, um pouco inspirado no Experience, de Jimi Hendrix. Ele disse que, além do violão, tocava guitarra, e confesso que duvidei de que pudesse funcionar bem. Mas como funcionava!

Gil me conquistou no instante em que subiu ao palco. No banquinho, com o violão, acompanhado pelo baixo de Moacyr Albuquerque e pela bateria de Chiquinho Azevedo, ele cantava uma música em inglês, The Sound of The End of a Time, que, mais tarde, apareceria no disco Refazenda, em português, como Ê Povo, ê. O repertório incluía Procisão, Expresso 2222, Back in Bahia, O Sonho Acabou e canções menos conhecidas, como as do disco gravado ao vivo no TUCA, em São Paulo. Mas o principal era o domínio absoluto que tinha do palco, dessa coisa de se apresentar ao vivo e envolver o público de uma forma que só os grandes artistas conseguem fazer.

Na hora em que pegava a guitarra, Gil abandonava o banquinho e virava um autêntico roqueiro. Procissão tinha letra de canção de protesto dos anos 60, mas a música havia sido transformada num blues. Back in Bahia era ainda mais rock'n'roll do que no disco Expresso 2222. Gil brincava com os morcegos do Santa Roza, que faziam vôos rasantes pelo palco, e dizia que o velho teatro lembrava uma daquelas embarcações do Mississipi. Sem medo de errar, foi o primeiro grande show que vi. E, mais do que isso, foi um show que mudou a minha maneira de compreender a música popular.

Toda vez que me lembro daquela noite, penso no quanto Gil sempre soube misturar as raízes e as antenas, para usar as palavras que ele próprio usou ao comemorar vinte anos de carreira, em 85. E, para mim, aquele show de 75 era um exemplo perfeito dessa mistura. As raízes de Procissão, as antenas de Back in Bahia, as raízes de Cantiga de Sapo, as antenas de O Sonho Acabou - as duas fundidas como se fossem uma só música, que começa com Jackson do Pandeiro e termina com John Lennon.

Raízes de um lado, antenas de outro, a sua árvore é sempre a mesma, como ele me disse uma vez, numa conversa em Olinda. Uma árvore que balança ao sabor de muitos ventos, como a gente pôde ver em cada um dos shows que fez em João Pessoa: em Refazenda (76), com Dominguinhos no palco e uma releitura da influência que o Nordeste exerce sobre sua música; em Refavela (77), totalmente voltado para a África e para o engajamento no movimento negro; em Realce (79), que marcava o ingresso no pop; em Luar (81), que levava as últimas consequências essa atitude pop do compositor e, mais ainda, do performer; em Um Banda Um (82), que parecia indicar que, aos poucos, abandonaria essa atitude; em Raça Humana (84), que lançava um olhar sobre o rock brasileiro dos anos 80; em Dia Dorim, Noite Neon (86), que, como o próprio título diz, trazia-o de volta para a discussão sobre raízes e antenas; em O Poeta e o Esfomeado (87), com Jorge Mautner, em que exibia no palco o desejo de entrar na política, o que aconteceu no ano seguinte, quando se elegeu vereador em Salvador. Foi o último show que fez em João Pessoa.

Nos últimos anos, a impressão mais forte que Gil me causa é a de um homem que, a cada dia, se despe mais da condição de artista. E como se, nele, tivessem desaparecido muitas dessas características que diferenciam os artistas das pessoas comuns. Mas o prazer de vê-lo ao vivo ainda é o mesmo. Foi assim, por exemplo, no Unplugged (94), que o reconciliou com a fatia mais ortodoxa do seu público, e no Quanta (97), em cuja turnê foi gravado o disco que lhe deu o prêmio Grammy. Como ouvinte dessa geracão que despontou nos anos 60, sou grato a Gil não só pelas canções que estão nos discos, mas sobretudo pelas muitas noites em que pude vê-lo no palco. Ao vivo, mais do que em disco, que se revela por inteiro como um grande artista popular do seu tempo.

in Meio Bossa Nova, meio Rock'n Roll. Sílvio Osias. Edição do autor, 2001.



in Meio bossa nova, meio Rock roll, 05.11.2000
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