Apresentacão do livro Travessia

Gilberto Gil

"a violência, a injustiça, a traição ainda podem perturbar meu coração mas já não podem abalar a minha fé porque eu sou e deus é disso é que resulta toda criação"

Ao ler, com prazer crescente a cada página, o livro escrito por Arnaldo Rodrigues Silva, lembrei-me dos versos acima lavrados por mim, faz algum tempo, para uma canção banal. Apesar da alienacão resultante da combinação de nosso descuido com o rolo compressor de um cotidiano impiedoso, por vezes a voz do ser se faz ouvir com mais nitidez em nosso interior, como a nos alertar para a tarefa permanente de nos entregarmos ao fluxo da criação com a atenção e a perseverança requerida para que se manifeste o Espírito Universal. Ainda que parcialmente bloqueados para as emanacões profundas do ser vivente, dentro em nós e ao nosso redor, por vezes somos irremediavelmente assaltados pela sua voz e sua luz a nos iluminar com a percepção de sua presença abrangente e sua extensão infinita.

Escrito em circunstâncias de extraordinário desafio existencial e de provação, o livro do Arnaldo é um testemunho vibrante da espiritualidade aberta a entrada do Grande Amor e da consciencia focada no cerne do Bem Comum.

A fusão de uma imanência sôfrega e devoradora com a sua transcendência correspondente, balsâmica e envolvente, operaram em Arnaldo, nesses seus dias de choque, abalo e paciente reconstrução, o milagre da visão divina. Ensurdecido pelo estrondo do colapso de boa parte do seu mundo exterior, ele ouve e atende a voz do silêncio e se dispõe a seguir o seu eco.

O resultado é este livro tão natural como uma flor. E o amor que é seu perfume.


in Travessia - diário de um psicólogo a partir de uma experiência limite. Rio de Janeiro: Editora Reserva Especial, 2002.



in Travessia, 30.11.2001
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