Gil em nova festa do interior

LBH

Gil: equilíbrio próprio entre modernidade e tradição sem recorrer a modismos

A verve "gonzaguiana" é a mesma que deu a Gilberto Gil um de seus últimos hits massivos - "Esperando na Janela", da trilha de "Eu Tu Eles" (2000). Um filão comprovadamente rentável, especialmente quando vem coincidir com os festejos juninos. Parece oportunismo, mas Gil, afinal, só está unindo o útil ao agradável.

É bom lembrar: ritmos nordestinos, em particular o xote, o baião e o forró, sempre estiveram presentes no cancioneiro do compositor - de "Viramundo" e "Procissão", do LP de estreia ("Louvação", 1967), à "Não Grude não" e "Despedida de Solteira", do recente "Banda Larga Cordel" (2008). Mesmo o "reggaeiro" "Kaya NGan Daya" (2002) mantinha à mão o triângulo e a sanfona.

Quase todo autoral, "Fé na Festa" inclui nove faixas inéditas. Mantém, ainda, certa proximidade estética/conceitual com o anterior "Banda Larga Cordel". Assim, surge mais como um típico álbum de carreira que um exercício de gênero propriamente dito - enquanto a orientação junina, atrelada à época de seu lançamento, soa apenas conveniente.

Sem recorrer a modismos, Gil encontra um equilíbrio próprio entre modernidade e tradição, valendo-se de uma banda de apoio já experimentada em diversas turnês. Nem sempre alcança bons resultados, especialmente no tocante às guitarras - saturadas de chorus aqui e ali (efeito de eco, muito usado nos anos 80). Compensam os baiões mais serenos, as belas melodias originais de "O Livre Atirador e a Pegadora" e "Assim, sim", que herda algo dos clássicos setentistas do ex-ministro.

Um tanto deslocada, porém fundamental ao bom conjunto da obra, está "Não Tenho Medo da Vida", composta em resposta a "Não Tenho Medo da Morte", do álbum anterior - desafio proposto pelo amigo e artista multimídia Rogério Duarte. Balada MPB tradicional, junta-se ao montante junino no sutil acompanhamento de acordeon. A faixa conta com participação do rabequeiro/violinista Nicolas Krassik.

A segunda metade do álbum cede mais espaço às regravações e parcerias. Inclui "Norte da Saudade" (de Gil, Perinho Santana e Moacyr Albuquerque, lançada em "Refavela", de 1977), "Lá Vem Ela" (coautoria de Vanessa da Mata) e "Dança da Moda" (Luiz Gonzaga e Zé Dantas). (LBH)



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in Valor Econômico, 18.06.2010
 
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