Gilberto Gil de corpo e alma

Compositor baiano lança primeiro disco de inéditas em oito anos e retoma observação existencialista de outrora

Há fortes razões para acreditar que o sofrimento conduz à criação e que, de fato, tudo que nasce é dor, mas um dia será pintura. O novo disco de Gilberto Gil realça essa percepção, já que o baiano de 76 anos apresenta uma lavra de canções compostas com inspiração no período em que ficou entregue a médicos para tratar de problemas renais. Nada demais, não fosse o bom nível da maioria das 15 músicas, incluindo aí três faixas bônus.

Ao contrário do repetitivo “Fé na Festa” (2010), o último de inéditas até então, Gil se reencontra com o melodista afiado e, principalmente, o letrista que sabe tocar a complexidade da vida humana com frases simples e adequadas ao discurso musical, do tipo: “que as noites sempre nos trarão a lua”, versos presentes em “Lia e Deia”.

Afetos. É preciso conter a empolgação. Esse crepuscular trabalho de Gil em direção ao sol não está no patamar dos clássicos que ele legou para a canção brasileira. Mas seria exigir demais até do autor de “Esotérico” e “Tempo Rei”.

Comparações à parte, o disco abre os trabalhos com a música que o batiza. “Ok Ok Ok” dá uma resposta para aqueles que cobram os posicionamentos políticos do antigo ministro da Cultura de Lula. No entanto, ironicamente, ela mantém Gil em cima do muro, o que dilui sua força, mesmo porque, a exemplo de seu título, está longe de ser a mais sagaz do álbum. A sequência é bem mais animadora. “Na Real” inicia a aposta na procura existencial que pauta o melhor da obra do cantor, com seu dançante acento pop.

Em outro tom, “Sereno” recupera a singeleza e o despojamento rítmico e percussivo de “Palco”. A inclusão das risadas do neto homenageado e de um coro com as demais crianças do clã é perspicaz e revela outra condição intrínseca da empreitada. A necessidade que Gil parece ter sentido de se apegar a um campo de afetos que vai da esfera íntima à pública. O cartel de homenagens corrobora a tese.

“Uma Coisa Bonitinha” talvez seja exceção, já que começou a ser gestada em 1997. Porém, sua recuperação diz algo importante, assim como a participação do parceiro João Donato na faixa: imprimir a memória é essencial. As imagens da mãe “bem apertadinha no maiô” e da avó “numa blusa justa de crochê” são parte do passado, mas permanecem.

“Quatro Pedacinhos” foi feita para uma das médicas que tratou Gil, e aparece como a mais sensível do repertório. O segredo está no jogo vocabular que o intérprete trama. Na primeira parte, o coração é analisado por sua perspectiva simbólica e subjetiva: nele se inscrevem medos, dores, sonhos e amores. Adiante, o temos como o órgão de proteínas, que causa moléstias e precisa ser curado com remédios. Como na vida, ao final essas duas circunstâncias se unem, e não sabemos mais onde começa a alma e onde termina o corpo.

O coração continua como protagonista em “Ouço”, que se impõe pela sonoridade exaustiva. “Jacintho” é a que melhor resolve a relação entre letra e música, comandada pelo característico violão do anfitrião. “Yamandu” louva o violonista gaúcho com menos vigor. “Tartaruguê” tem Donato, e isso basta. “Sol de Maria” (para a bisneta) e “Prece” versam com lirismo sobre a vida e a morte. Já as três faixas bônus, “Afogamento”, “Kalil” – que mais parece um jingle comercial –, e “Pela Internet 2” são dispensáveis.

“Ok Ok Ok”, primeiro CD de inéditas de Gilberto Gil desde ‘Fé na Festa’ (2010), apresenta 15 faixas, entre elas três bônus. “Sereno” homenageia o neto, já “Sol de Maria” foi feita para a bisneta do artista. “Uma Coisa Bonitinha” tem João Donato como parceiro, e “Afogamento” foi criada com Jorge Bastos Moreno.



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in O Tempo, 21.08.2018
 
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